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O Racismo Malandro

In Testemunho on February 16, 2018 by darllamcruz

“Malandro” foi uma gíria utilizada por muito tempo para denominar e demozinar gente preta. Porque nunca decidiram muito bem o que estava no nosso DNA: assim que acabou a escravidão e os negros deixaram de ser máquinas incansáveis de labor, nos tornamos as pessoas mais preguiçosas e furtivas. Então é essa nossa imagem: um furto ali, um golpezinho ali, fazer aquele gato esperto, pegar dinheiro emprestado e não pagar, dar calote no bar e o melhor: nunca ser pego fazendo isso. Estamos todos nesse balaio, mesmo que o sistema carcerário esteja transbordando de negros.

Mas parece que algumas pessoas brancas pediram a Deus um pouco de malandragem porque agora que todos cospem suas opiniões em mil redes sociais, brotou o fenômeno do racismo malandro. Se você apontar o racismo da pessoa ela irá discordar e se sentir perseguida e atacada, falar que disse apenas argumentos e fatos e talvez citar uma lei.

1) A Classe Média
Os racistas malandros não têm as origens do malandro de raiz. Geralmente nasceram e permaneceram toda a vida na classe média. São moderados e querem o diálogo mesmo quando a questão em voga é genocídio. Se tem membros familiares extremamente racistas, continuam cúmplices, porque “não vou brigar com minha família” ou “só os vejo no Natal”. A maioria tem ensino superior completo e até uma respeitada carreira acadêmica, são articulados e sempre estão certos. Mas esse racismo, que é diferente do racismo explícito e do velado, é tão pernicioso e cruel quanto os outros. Ele vem do tipo de pessoa que não vai olhar para um negro com desprezo da cabeça aos pés, ou disparar ofensas. Esse racismo se esconde em comentários irônicos, na ridicularização de pessoas negras que falam sobre raça, no nosso apagamento, no silenciamento de quem estuda e escreve sobre questões raciais – principalmente mulheres negras – na diminuição de gente preta como um todo. Para avistar o racismo ali, é preciso ser preto e ter o olho treinado pra saber como gente branca funciona. Se apontado o racismo ali, vão tentar te fazer provar, caso contrário é vitimismo ou paranoia ou querer aparecer. Tentam fazer parecer que você está louco ao ficar mal com algo inteiramente justificável.

Pregam a justiça social, mas a que existe na cabeça deles. Estão com o cu na mão pelo que vem aí, mas não por pensar em minorias, e sim pelo medo de perder a estabilidade que conquistaram nos últimos governos e não quererem sair dessa comodidade. A justiça social, para eles, implica em não perderem seus privilégios. Gritam golpe mas não querem uma mudança real, apenas não ter a insegurança de perder direitos. São sempre pessoas de boa índole, mas que falam que agora “tudo é racismo” e tratam como se fosse uma questão de moda passar por uma experiência brutal e traumatizante.

Falam em censura quando nos revoltamos com algo que é extremamente ofensivo e prejudicial, enquanto acham que as pessoas pelas quais elas pagam por um serviço têm de ser impecáveis, porque o erro só existe no outro. Tratam garçons e funcionários de loja de maneira horrível, ficam putos se o taxista não souber o caminho porque ele precisa ser um GPS humano, contam anedotas da “minha empregada” como se fosse algo engraçado e não extremamente constrangedor. Só fazem comentários abertamente racistas quando acham que ninguém que se importa está vendo, estilo William Waack. Ao mesmo tempo que estão putos com a alegria genuína de pessoas negras, tentam amaciar isso com bobagem. Citam a todo momento celebridades negras que admiram a beleza, porque isso os vai revogar de qualquer racismo que cometerem. Isso nos leva ao ponto 2. Eu iria postar essa reflexão no Facebook, mas um textão com duas partes eu com certeza estaria morto antes do fim do dia.

2) O Pau Preto

No campo afetivo gay, os racistas malandros se apresentam como pessoas que por terem feito algum curso de humanas acham que entendem o racismo e o melhor: têm a cabeça super aberta. Se dizem militantes e por isso não cometem erros. Vão elogiar suas qualidades. Vão cavar uma amizade que você permite que cresça porque a pessoa parece genuinamente boa. Você fica encucado com a curiosidade da pessoa sobre você e ignora todos os sinais vermelhos. Você aceita as qualidades da pessoa e amordaça a voz na sua cabeça que grita “CORRA”. Às vezes usam a beleza Abercrombie & Ficth como arma ao mesmo tempo de sedução e intimidação. Disfarçam a masculinidade predatória atrás do discurso “eu sou sensível”. Crava essa amizade na sombra da solidão ou do sexo e sempre no seu privilégio de estar em contato com ela. Daí pra frente é só ladeira abaixo.

A conversa se torna sexual mesmo que o assunto não seja sexo, mesmo você deixando claro que é chato, infantil e inconveniente. Tentam te fazer ciúmes com sugestões de que elas podem ter qualquer pessoa do mundo mas generosamente prefere você. Por dividirem uma visão positiva sobre sexo, têm a ideia de que há sempre um consentimento, que é usado para violar limites. Desprezam esses limites porque qualquer coisa você não é “cabeça aberta” como eles. Camuflam as dinâmicas de poder citando tudo que é contra como conservadorismo. Insiste em comparar seu tom de pele com chocolate. Acham que o relacionamento nasceu de um entendimento profundo que nunca existiu a seu favor. O racismo malandro se instaurou lá em cima, mas você só começa a perceber tempos depois, quando começa a se tornar muito prejudicial. Começam a te falar que gosta dos “negão da beiça grande”. Fazem questão de mencionarem que está se relacionando com uma pessoa não branca, como se fosse de alguma importância para você. Você percebe que você não passa de um acessório de fetiche e desumanização. Essas pessoas acham que com quem se relacionam valida e é parte determinante do seu “ativismo”. Têm ciência de seus privilégios e tenta escondê-los atrás de uma conexão com um negro.

Esse é o pulo do gato: essas pessoas estão te usando para se exotificar. Nas olimpíadas da opressão ser branco não basta. O racismo que o outro sofre é seu também. Eles entendem tudo sobre lidar com a opressão racial porque a pessoa com quem ela se relaciona o sofre. Você é uma placa de condecoração. Te transformam numa parte da personalidade delas para ser visto como radical e que não é capaz de nenhum comportamento babaca porque afinal de contas está com alguém de outra raça. Entendem a hipersexualização que você passa porque muita gente flerta com elas nas baladas. Para não confrontar a supremacia branca e os próprios privilégios, traçam claras rotas de fuga.

O cenário é simplesmente triste: você é apenas um pau preto com benefícios para outra pessoa. Quando confrontados diante disso, ignoram sua identidade, suas especificidades e sua luta porque passaram por situações difíceis também. Desprezam sua capacidade de inteligência pois acham que, já que você ignorou os outros sinais, não enxergará também esses. Se acham inteligentes por escreverem sobre coisas que nunca passaram ao mesmo tempo que negam toda sua vivência e experiência. Não são capazes de disfarçar a burrice quando pensam que tesão é a quebra definitiva da opressão estrutural, e que por isso eles nunca podem ser opressores.

Quando você tenta se afastar, acham que sua guerra pessoal pela sobrevivência, seu senso de autopreservação e sua falta de paciência para bobagem se traduzem em ciúmes da pessoa interessantíssima que ela é. Dizem que é falta de amor próprio. A culpa de vocês terem se afastados é que “você era muito difícil, muito cheio de problemas”, e nunca a dificuldade de entenderem que vêm o homem negro pela perspectiva da engrenagem social que nos move há séculos. Eu não tenho mais mão de tanto dar murro nessa ponta de faca. A questão é que essas pessoas: fetichizam negros ao máximo e não reconhecem esse problema quando o é apontado, embora ajam de maneira completamente oposta quando se relacionam com brancos. Não aceitam quando não queremos ser apenas uma fantasia, um desejo pra ser riscado de uma lista, uma aventura ou um experimento. Se interessam por pessoas negras para serem suas mães, seu Google, seu livro de sociologia e sua mula. Por sorte, nem toda relação é assim. Mas você já deu muitas voltas no bloco pra perder a inocência e saber uma coisinha ou outra de como a branquitude e o racismo operam nesse cenário.

Vão, malandros. Mas tem gente de olho.
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Socando Tubarões ou Me Sentindo Bem

In Testemunho on December 16, 2017 by darllamcruz

Eu entrei em 2017 com um único objetivo: sobreviver. Em 2016 eu não existi. Foram raros os momentos em que eu não estava em estado total de torpor. Eu afogava meu cérebro no álcool, o nublava com fumaça e completava o coquetel com ansiolíticos para conseguir dormir. Isso tudo para meus pensamentos não me atingirem. Sentir o que eu sentia tinha ficado insuportável. Não sentir era o melhor, e o que eu fazia. Eu já estava em tratamento há alguns anos, mas nunca havia sentido melhora alguma. Esse foi um dos motivos (não o único) de eu entrar nesse espiral autodestrutivo: uma das pessoas que me tratou era perigosamente relapsa. Uma das coisas que ajudavam a pesar mais a carga que eu carregava é a minha não independência financeira: meus pais pagavam minha terapia e as sessões psiquiátricas e os remédios, e eu me sentia a coisa mais inútil do mundo. Por pressão nenhuma da parte deles: eles me encorajavam e persistiam até quando eu pensava em desistir. Mas eu me odiava tanto que achava que não merecia isso, ou nada. Então nas sessões de terapia e psiquiatria eu não escondia nada, pois pensava no dinheiro que meus pais estavam gastando. Eu revelava que os remédios não estavam me ajudando e falava que continuava com meu ritual químico diário. Ela alterava um remédio ou outro mas parecia não se importar que o que eu fazia todas as noites era algo letal. Na verdade, eu tive muita ideação suicida. Eu achava, até pouco tempo, que não tinha chegado na fase do planejamento. Eu não teria coragem de me matar: eu não suportava a ideia de meus pais encontrarem meu corpo sem vida. Mas ás vezes eu bebia e pegava o carro e ia pra BR da minha cidade e atingia 160 km/h, desejando muito forte que o carro saísse de controle ou que eu sofresse uma colisão frontal com um caminhão. Seria um “acidente” e isso me fazia sentir melhor. Eu estava muito doente e não me julgo por isso. Eu só queria parar de sentir como eu me sentia todos os dias.

No início de 2017 eu não tinha esperanças que atingiria meu objetivo. Em 2016 eu engordei 40 quilos. Eu não saía da cama e basicamente me alimentava de cerveja e lasanha congelada, e não é exagero. Eu tenho como prova as estrias que se espalharam pelos meus braços, pernas e abdômen como mapas hidrográficos e que hoje carrego sem vergonha alguma pois são minhas cicatrizes de guerra.  Nada me dava prazer, a não ser comédias que eu via e revia. Por pior que eu estava eu conseguia rir, e principalmente rir de mim mesmo e da situação em que eu estava. Não sei se era saudável, mas acho realmente que sem o humor que inexplicavelmente permaneceu inabalado durante meus anos de depressão e transtorno de ansiedade generalizada eu teria sucumbido. Mas essa era minha única fonte de alegria. Eu me apresentei como comediante stand-up por três vezes (sim eu teria a mesma reação que você teve agora), e as três vezes que estive no palco foram os momentos que eu mais me senti vivo. Principalmente a terceira vez, que diferentemente das duas primeiras vezes em que meu nervosismo e ansiedade me fizeram passar os dias à base de uísque barato e café, eu consegui ficar sóbrio e escutar as risadas e ver a reação do público. Quem convive comigo sabe que meu maior dom é fazer as pessoas rirem do tanto que sou ridículo. E elas não sabem como isso me faz bem.

Tirando isso, minha cabeça estava uma grande nuvem do cinza mais escuro. Eu não conseguia enxergar nada porque nenhum raio de luz conseguia perpassar essa nuvem. Eu perdi amigos, amigos próximos. De um vieram as palavras: “não tem mais jeito, vai morrer igual a Amy Winehouse”. Quando numa mesa de bar perguntaram sobre mim a uma amiga próxima, o anjo que mesmo eu empurrando fincou o pé ao meu lado e não saiu, a chamaram de “mulher de malandro”. Uma imbecil da minha cidade perguntou pra essa mesma amiga como ela me aguentava, que ela não sabia como meus pais aguentavam esse “fardo”. São coisas que machucam muito uma pessoa que está se sentindo abaixo de zero. Mas eu só devia explicações sobre meu estado a meus pais e a esses amigos que ficaram gritando por mim do alto do poço que eu tinha me afundado. Eu já disse e repito: quando você está afogando e vê que seu destino está inevitavelmente ali, é difícil agarrar a mão de quem tenta te salvar por medo de puxar a pessoa para as profundezas.

No início de abril duas coisas aconteceram que mudaram minha vida. Meu pai finalmente me convenceu a trocar de psiquiatra, campanha que ele fazia há meses e eu resistia porque as sessões eram um pouco mais caras. Eu cheguei com 6% de vida nesse psiquiatra. Eu não estava incomodado por estar gordo: eu estava incomodado porque eu sentia que eu estava mais inchado de cerveja que seu tio Roberto. Os mini-dreads que eu fiz no cabelo estavam fora de controle: as pessoas gostavam, mas eu sabia que aquilo era falta de manutenção e me sentir negligente com minha higiene me fazia sentir horrível. Eu não conseguia manter contato visual porque as pessoas iriam olhar para os meus olhos e ver que não existia ali uma faísca de vida. Antes de entrar no psiquiatra eu preenchi um formulário. Em “observações adicionais” eu escrevi “me ajuda”, porque pensei que seria uma ótima piada para um caso sério. Não bastou mais que isso e uma conversa de cinco minutos para esse novo psiquiatra fazer algo que nunca fizeram: me diagnosticar. Há quase uma década eu sentia o que sentia e a única coisa que eu podia falar era que eu estava em um quadro depressivo grave, mas nada mais. Ele me passou remédios, que não acreditei que fariam alguma diferença, e me indicou uma terapeuta. Eu vi ali minha última oportunidade de voltar a ser uma pessoa, e isso me fez triste. Enquanto eu voltava pra minha cidade no carro com meu pai e os remédios caríssimos que me foram passados, eu chorei. Eu não sentia que seria possível qualquer mudança acontecer em minha vida. Eu chegaria em casa, ignoraria tudo que aconteceu, tomaria minhas pílulas com quatro litros de cerveja e cairia em minha pequena morte diária. Eu fui na terapeuta também nessa semana, sem esperanças. Ao sair de lá, também chorei torrencialmente. Eu tinha certeza que tinha passado de um ponto em que não havia mais retornos.

Na mesma semana, no sábado, minha mãe comemorou numa festa seus 65 anos. Eu tracei um plano em minha cabeça: eu beberia até o limiar do coma alcoólico e depois largaria o álcool. Mas como todos meus planos eu tinha certeza que não conseguiria. O domingo passou, eu não bebi e fiquei bem. A semana que se seguiu foi um inferno. Eu não comi absolutamente nada, e ainda assim vomitava de hora em hora. Com o tempo a situação ficou menos pesada (mas nunca fácil), e eu consegui completar meu objetivo de não beber por três meses. Eu senti uma melhora gigantesca, embora ainda estivesse muito mal.

Nesse meio tempo, não sei como, tive diversas epifanias (por falta de palavra melhor) na terapia. Eu já fazia terapia há alguns anos, mas com a nova terapeuta eu desenterrei coisas que estavam dentro de mim desde quando começam minhas memórias (e minha memória é espantosa). Os traumas que revivi no consultório, de quando eu era criança, adolescente e até no início da “vida adulta”, me fizeram sentir muita raiva, muita dor e muita tristeza. Eu não sei se soube lidar bem com esses sentimentos: às vezes eu abria a porteira e soltava minha manada de ódio em cima das pessoas como se as coisas que eu tinha passado tivessem acontecido ontem. Eu sofri muito porque isso comprometeu minha melhora. Mas era algo pelo qual eu precisava passar. “Ressignificar”, a palavra que minha terapeuta usou e que eu fiz, de alguma maneira. Um dia eu cheguei ao consultório e disse: “não quero mais focar no passado, eu quero olhar para frente”. E quanto mais eu descobria de mim, mais eu gostava de mim. Eu não senti, mas meu autodesprezo, que era uma força da natureza, foi se dissipando. Eu parei de me importar com coisas insignificantes. Eu parei de voltar ao passado pra achar motivos que justificassem minha depressão. Mergulhar até o fundo desse lago foi bom e importante, mas nada iria adiantar se eu não voltasse à tona. E eu voltei, lentamente, e o momento que percebi que algo havia mudado em mim me atingiu como o momento que emergi desse lago e enchi meus pulmões de oxigênio, inalando o ar num gesto ao mesmo tempo de dor e alívio.

E é nessa palavra que quero focar: alívio. Levei algum tempo para perceber, mas eu estava me sentindo muito estranho, e não conseguia precisar o que era. Um dia, ao acordar, eu percebi que a primeira coisa que eu sentia quando abria os olhos não era mais a angústia, a dor e a tristeza que me esmagavam o peito a ponto de eu ficar dias na cama. Na verdade, além do alívio, não consigo dar nome às novas coisas que estou sentindo. E nem preciso. Eu não sei se posso ousar falar que estou feliz: não sinto felicidade há tanto tempo que eu me esqueci como é a sensação. Estou aliviado e orgulhoso de mim, e também bastante assustado. Um dia depois de cair na real sobre minha nova situação, eu fui à terapia, e minha ideia era justamente puxar a rédea: eu tô liberado pra surfar essa onda sem ter medo de um tubarão arrancar minha cabeça com uma mordida? A coisa é que sempre haverá tubarões. E dizem que se você socar um tubarão muito forte na ponta do focinho ele te dá paz. E minha vida vai ser isso por muito tempo, talvez enquanto eu respirar: tentar dar socos cada vez mais fortes no focinho de todo tubarão que me aparecer.

E isso pode parecer confuso, mas minha cabeça está muito confusa. Faltam duas semanas para terminar o ano, e eu não apenas conquistei meu objetivo (ok, um ônibus pode me atropelar logo mais tarde nunca se sabe, mas vamos ser otimistas) como fui um pouco além. Agora eu tenho vontade de fazer as coisas. Eu tenho vontade de achar e definir minha voz e dividi-la. Eu quero transformar meu potencial em ação. Voltar para o interior para morar de novo com os pais pode ter parecido um enorme passo para trás para muitas pessoas. Eu nunca me importei com isso. Eu tirei o ano para tentar cuidar da minha saúde mental, e estou muito orgulhoso do resultado e de mim. Eu não acho que os anos que passei preso na depressão e no processo de começar a me curar foram anos perdidos: não vou me sentir mal porque não estava estudando o que gosto, trabalhando no que quero e vivendo minha melhor vida. O que eu aprendi nessa época me preparou para ver a vida de outra maneira, foi o período de maior aprendizado para mim. Nesse período, pessoas saíram da minha vida. Algumas eu descartei, pelo fato de que me faziam ativamente sentir pior pela minha situação. Mas as pessoas que importam ficaram. E eu pensei que não faria mais amigos na vida, mas de alguma forma esse ano também estreitei o laço com pessoas maravilhosas que hoje chamo de amigas e que me enchem o coração de alegria. Eu voltei a me divertir ao sair, sem me embebedar até o ponto de não lembrar de nada que ocorreu no dia anterior. Agora eu tenho a noção que imitei a Shakira dançando na parede na noite anterior, e me divirto, obrigado. Eu voltei a sentir prazer com amigos e visitas sem sentir no fundo que assim que eles desaparecessem da minha visão eu voltaria à escuridão, ou sem ter que esconder o tempo todo que eu sou uma falha que estragaria o dia deles. Eu passei a não sentir vergonha das pessoas que viram eu me comportar de maneiras estranhas (e foram várias) quando eu não tinha controle de mim, justamente porque não estava em controle de mim. E há duas semanas, depois de um episódio que me deixou muito mal mas que superei em um dia (fato inédito), eu percebi que não preciso da validação das pessoas que uma vez fizeram parte da minha vida. Eu mudei. Eu continuo a mesma pessoa, claro, mas agora eu acordei de um pesadelo. Agora eu sinto e vejo e processo as coisas ao invés de me anular para não ser atacado por meus pensamentos. Agora eu vejo que eu não preciso que pessoas que fizeram parte do meu passado me digam “como você mudou” para eu sentir que elas não me vêm da mesma maneira. Eu estou satisfeito comigo e com os meus. Eu estou me sentindo bem. Eu acho que daqui a algum tempo vou falar (ainda que a frase seja acompanhada de uma pequena interrogação que meu cérebro insistirá em colocar) que estou feliz.

E eu queria agradecer. Aos meus pais, que salvaram minha vida, que nunca desistiram de mim, que nunca me fizeram sentir mal pelo meu estado, que tiveram paciência quando eu não era eu, cujo amor me elevou. Sim, eu era um marmanjo que precisava de cuidado e carinho. Precisava de meus pais ao meu redor enquanto eu chorava desesperado na cama falando que nunca ia conseguir sair dessa. Precisei de meus pais muitas vezes para me pegarem pela mão e me levarem até onde eu precisava estar para me curar. Precisei dos meus pais para perceber que sou muito, muito amado, e que sem vergonha citando Céline Dion, eu sou tudo que sou porque eles me amaram. Eu quero agradecer minha amiga Samara. Sem vergonha citando Shaggy, ela é meu anjo, minha amiga sempre que necessitei. Eu quero agradecer ao meu amigo Thiago, sem vergonha citando YG eu dirigiria o carro de fuga depois da gente roubar um banco, só porque ele é meu nêgo (e porque eu gosto de dinheiro). Ele não esteve ao meu lado apenas nesses tempos sombrios, ele foi a pessoa compreensiva que eu precisava num momento muito específico. Eu quero agradecer minha amiga Bárbara, que embarcou numa jornada louca comigo e citando sem vergonha Regis Danese, como Zaqueu subimos o mais alto que pudemos. Quero agradecer a Gabriela Terenzi cujas mensagens que trocávamos, mesmo que esporádicas, me enchiam de esperança e me faziam sentir menos sozinho, mesmo quando eu não tinha forças pra responder. Citando sem vergonha Guilherme e Santiago, ninguém irá tirar de mim a luz que tem um amor assim. Quero agradecer aos meus amigos que respeitaram meu tempo e mesmo não estando presentes ativamente, me ajudaram porque eu não sentia julgamento como senti com diversas outras pessoas. Obrigado à artista Solange, que enfiou a mão dentro do meu peito e tirou o medo que eu tinha de tudo e me ensinou como navegar esse mundo que muitas vezes é totalmente contra mim. Eu não consigo citar alguma música específica, todas me ajudaram a me curar. E sem vergonha de citar Sia, eu tinha uma passagem só de ida pra um lugar onde só demônios vão. Onde o vento não muda e nada no chão consegue crescer. Sem esperança, apenas mentiras, e você é ensinado a chorar no seu travesseiro. Mas eu sobrevivi. Ainda estou respirando. Estou vivo.

Não quero ninguém me parabenizando por minha força. Isso implica que eu estou me sentindo assim porque fui forte, e é verdade. Mas todas as pessoas que estão passando por isso ou que passaram são as pessoas mais fortes que consigo imaginar. Implica que pessoas que na mesma situação que eu não conseguiram de forma alguma sentir uma melhora são fracas. E nenhum ato que nós fazemos enquanto estamos no olho desse furacão é um ato de fraqueza. Ao invés de felicitações eu gostaria que vocês pensassem em todas as pessoas que passam por isso ou coisa parecida, eu tenho quase certeza que existe alguma perto de você, e não as julgassem nunca. De novo, eu tive muita ajuda. A minha sorte de ter essa rede de apoio, principalmente minha sorte de ter a mãe e o pai que tenho que provavelmente é uma em um milhão, é a coisa pela qual mais sou grato. Nem todos têm a minha sorte, os meios financeiros para bancar um tratamento e você NUNCA vai saber o que se passa na cabeça da pessoa, por mais que ela te explique. Eu não acho que ninguém era obrigado a me ajudar. Ainda assim me encheram de amor por todos os lados até eu aprender que eu sou merecedor desse amor. Eu não guardo mágoas de pessoas que se foram durante esse período. É a vida. Não sinto raiva das pessoas que me machucaram com palavras, mas queria que elas soubessem o tanto que isso é prejudicial. E queria deixar meu amor a todas as pessoas que lutam ou lutaram por um equilíbrio da química cerebral, para conseguirem superar golpes horríveis que a vida aplicou, para saírem de uma areia movediça que parece que realmente será seu fim. Eu vejo vocês. Mesmo quem não está mais conosco. Eu continuo vendo vocês.

Meus dedos choraram todas essas palavras direcionados às pessoas que gosto e que me gostam. É difícil tornar público algumas coisas, mas eu só gostaria de falar com as pessoas que se identificaram com algo que passei, que eu sei que todas palavras que jogam em cima de você viram ecos fracos diante do poder dos seus pensamentos. Isso não é um arco de superação. Eu sei que para a vida inteira viverei na sombra dessas doenças. Eu não quero falar para as pessoas que não vêm a luz no fim do túnel para terem esperança quando eu sei que isso não funciona. Eu queria falar que estou aqui, e vou estar até quando você precisar, e eu não julgo nada que você faça para passar por isso com o mínimo de sofrimento possível, que já é um sofrimento gigantesco. Me procure. Eu estive nesse lugar, e escalar meu caminho de volta não foi nada fácil ou prazeroso. Eu vou fazer meu melhor para respeitar sua jornada.

E desde 2009 não me sinto assim. Ainda estou me acostumando. E eu só vou conseguir terminar esse texto citando outra pessoa que me ajudou a entender que a luta pela liberdade é doída, sofrida, nauseante, cheia de curvas inesperadas e armadilhas: é uma nova aurora, é um novo dia, é uma nova vida para mim. E estou me sentindo bem.