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Desculpas

In Testemunho on July 1, 2018 by darllamcruz

Eu estava em uma festa. Estava tudo ótimo. Eu tinha bebido mas aguentaria umas vinte cervejas mais. Eu me dirigi ao meu carro com minha mochila. Eu liguei o carro e coloquei meu endereço no Waze. Depois disso eu lembro de muita pouca coisa a não ser eu chegando na minha casa, rindo, fazendo batata frita e pensando em assistir algo antes de dormir. Por que eu fiz isso?

Eu sou muito a favor de falar sobre doenças mentais porque estigmas etc. Mas eu não sei se estou ajudando ou atrapalhando falando da minha condição, porque eu ainda não sei muito bem navegar essas águas. Eu tenho transtorno bipolar. Sou bipolar 2. Li sobre isso apenas um livro que minha terapeuta passou e coisas na internet. Eu fiquei sabendo deste diagnóstico há pouco mais de um mês. E muita coisa fez sentido na minha vida. Muitas situações, muitos acontecimentos, muitos relacionamentos. Não é desculpa para a maneira que vivia, mas desde 2009 eu não me sentia feliz. E ano passado, de repente, fiquei. Eu fiquei em Belo Horizonte ao invés da minha cidade no interior, eu saí, eu vi pessoas, eu tinha apetite, eu tinha libido, eu estava mudando, eu estava me sentindo bem. Mas não. Era uma crise hipomaníaca. Eu acordava todo dia como se eu fosse o Kanye West, tudo que eu fazia não tinha defeitos, eu era brilhante, eu fiz planos para minha vida e estava disposto a colocar tudo em ação. Mas essa “alegria” foi se esvaindo, e depois de levar um baque pesado por problemas de saúde na família, eu voltei a acordar triste. Muito triste.

Isso explica por que eu organizo festas só para chorar por duas horas sem motivo aparente. Isso explica um dia inteiro que passei chorando sem explicação, falando as coisas mais doidas da vida com minha amiga, coitada. Isso explica todas as vezes que marquei de fazer algo com alguém e simplesmente não dei mais sinal de vida, ou dei uma desculpa tipo “torci o pé”. Isso explica porque quando tentei trabalhar tive ataques de pânico no banheiro e simplesmente parava de ir após o segundo dia. É por isso que às vezes pra mim é mais fácil não conversar. Por isso que um dia eu dancei igual a um louco às 10h da manhã num ensaio de bloco de carnaval. Parecia que eu tinha tomado lsd, mas não tinha. Por isso que eu não fui visitar meus avós desde o Natal. No Natal passado eu estava “feliz” e fiquei ainda mais feliz que minha avó, meu avô e minha tia iam me ver bem. Eu não quero ir lá no estado que estou agora. Não estou mais conseguindo fingir felicidade. É por isso que eu tenho que cada vez mais ouvir minha família, que eu decepciono e deixo triste com certa frequência. É por isso que eu me escondi por tanto tempo e ainda me escondo porque eu acredito que nunca ninguém vai me amar. E eu acho que não mereço ser amado. E eu não me sinto amado. As pessoas falam “olha o tanto de pessoas que gostam de você, quantas pessoas te amam”. Desculpa, mas infelizmente pra mim não faz diferença. E sou horrível por isso. Sou também grato e amo todos de volta com toda força, mas meu coração não vai computar esse sentimento com amor. Todas as alegrias que tenho, quando depressivo, duram dez segundos. É ótimo ser validado, mas a sensação de satisfação desaparece em segundos. Eu estou cansado de pensar que tem algo quebrado permanentemente dentro de mim.

E eu me odeio. Eu não consigo olhar para mim e ver uma pessoa que eu gosto. Eu me sinto inadequado em todas situações. E eu só consigo pensar em como eu machuco as pessoas. E eu não consigo não me importar com o que eu acho que as pessoas acham de mim, porque eu me odeio então automaticamente elas vão me odiar. Quantas pessoas já se preocuparam comigo porque eu estava empenhado em fazer as coisas mais autodestrutivas possíveis. Quantos amigos eu já machuquei por não estar no controle. Quantos relacionamentos eu destruí por antecipar a destruição. Eu queria pedir desculpas a todos que já foram afetados por isso.

Eu estava bem até ontem. Mas devia ter percebido que eu estava entrando em uma crise porque um dia dessa semana eu decidi que teria um site. Eu escreveria o primeiro texto no mesmo dia em que montaria e lançaria o site (eu não tenho a menor noção de desenvolvimentos de site). Eu não sei se é saudável, mas hoje passei o dia lendo relatos de pessoas bipolares e o que elas já fizeram em crise hipomaníaca. Me senti menos sozinho agora quando lembro que apenas decidi que seria uma boa ideia ligar o carro e sair por bairros desconhecidos e depois pegar a BR até minha casa. E com um sorriso no rosto. Eu demorei a cair na real sobre o que eu tinha feito. Depois fiquei com medo. Mandei mensagens para um amigo porque tinha medo de não lembrar das coisas ao me acordar. Eu fui dormir pensando em uma explicação para o que eu fiz. Não achei, além da predisposição de cometer loucuras pra saciar minha necessidade de adrenalina. Eu já me coloquei em várias situações de risco. Eu sinceramente não sei como estou vivo até hoje. Eu queria muito que as pessoas que machuquei agindo assim me perdoem.

Eu não acho que as pessoas devem se desculpar por terem algum tipo de transtorno mental. Mas essa sempre foi minha vida. Tipo em Adaptação., que o Nicolas Cage se pergunta por que ele sente como se tivesse que pedir desculpas por sua existência. É isso mesmo. Muitas pessoas já falaram “para de pedir desculpas, não tem problema”. Mas se eu peço desculpas é porque sei do que sou capaz. É que eu sei que não sou uma pessoa boa. Eu sou compulsivo, eu tenho personalidade viciante, eu sou viciado em adrenalina e eu vou fazer escolhas erradas e vou atuar em cima delas. Deve ser porque eu me odeio. Mas eu não quero arrastar pessoas queridas para isso.

Eu me abri com minha mãe. A compreensão que recebo pra mim é uma crueldade com ela. Ela não deveria ter que se preocupar comigo. Ela não deveria escutar o filho de quase 30 anos dizendo que fez uma doideira possivelmente letal no dia anterior. E ela apenas disse a verdade: que eu preciso gostar de mim mesmo. Que eu preciso me amar. E eu preciso. Muito. E eu também acho isso uma coisa impossível de acontecer. Esse é o único pedido da minha mãe que eu sei que não conseguirei realizar, e isso rasga meu coração. Eu não estou nem um pouco bem com esse fato, mas eu tenho certeza que vou afastar todo mundo da minha vida e que meu destino é estar completamente sozinho pra sempre. Porque quem vai amar a pessoa que eu enxergo em mim? E se amar que direito tenho eu de aceitar?

Isso não é um pedido de indulgência. Eu agora sei o que me faz mal, sei com o que tenho que tomar cuidado, sei que é melhor me cancelar antes de perder o controle. Porque quando eu perco o controle não são coisas boas que acontecem.

Eu queria pedir desculpas principalmente a mim mesmo. Por ser tão mau comigo, por me odiar, por achar que eu sou a pior pessoa do mundo, por ter afirmado mil vezes que não mereço amor e que nunca vou tê-lo. Esta, pra mim, é a pior parte da minha doença. Ontem eu não mostrei respeito nenhum à minha vida. Eu apenas considerei que seria divertido vir dirigindo bêbado em alta velocidade até minha cidade. Não existia consequências naquele momento. Do que mais estou envergonhado é que minha desconsideração pela minha vida me fez não pensar na vida das pessoas que eu poderia machucar. Enfim, foi um despertar. Eu não sei direito o que fazer. Primeiramente vou ser sincero com os profissionais que me tratam. Vou tentar me sentir o melhor possível pra depois dar os primeiros passos rumo ao mundo. Eu tenho 28 anos e minha conta da Apple Store e meu Spotify estão no cartão de crédito da minha mãe. Não acho isso bonitinho. Eu não me sinto bem. O jogo comigo começa aos 44 do segundo tempo. Eu não tenho o mínimo de estabilidade financeira ou emocional. Eu sou uma bagunça que eu não sei como arrumar. E estou escrevendo isso porque preciso encarar o que sou, e mesmo que isso afaste pessoas, eu não posso fingir que sou alguém que não sou. Ano passado eu escrevi um texto sobre estar me sentindo bem. Foi sincero, mesmo que eu não soubesse exatamente pelo que eu estava passando. Então resolvi escrever este falando que estou procurando me sentir bem novamente. Bipolaridade não tem cura, apenas controle. E eu preciso me controlar. Porque de outro modo o resultado pode muito bem ser fatal.

Perdão.

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Moonlight: masculinidade negra e afeição

In Testemunho on June 26, 2018 by darllamcruz

Em Línguas Desatadas, de Marlon Riggs, filme seminal (e um dos únicos) sobre a experiência de ser um homem negro homossexual, todos os tipos de discriminação sofrida pelas pessoas que ocupam essa intersecção é dissecada. Experiências pessoais e específicas são traduzidas em uma verdade universal: o racismo e a homofobia são dois átomos que se atraem para gerar uma molécula cruel, desumanizadora e letal. Não há muito mais a ser dito sobre isso.

Mas esta não é a única carga que o homem gay negro é obrigado a carregar. Às vezes o ódio homofóbico vem da sua própria comunidade, do seu próprio grupo, da sua própria família. E a homofobia interracial não pode em nenhuma instância ser colocada no mesmo balaio que a homofobia intrarracial. Os dois tipos são destruidores mas, enquanto há uma certa distância entre perpetuadores e vítimas, como no caso do racismo homofóbico, há ainda a esperança que este ódio não atinja o alcance necessário para comprometer sua integridade física. Homens negros, ainda que na hierarquia social se encontrem em uma posição inferior a seus pares brancos, não estão livres da masculinidade patriarcal, e essa ainda se alia aos estereótipos que nos foi imbuído ou que herdamos, e na maioria das vezes a experiência de ser um homem gay é tolhida, reprimida e solitária. Esta solidão tem muito a ver com o campo afetivo, mas é reducionista levar em conta apenas as relações de amor que são sexuais.

É um velho mito que pessoas negras são mais homofóbicas que pessoas brancas. A questão é que a homofobia sofrida pelo homem negro também é formada por vários outros fatores que estão fora do nosso controle. A cultura negra não é mais homofóbica que a cultura branca, como somos condicionados a acreditar. Os costumes homofóbicos de vários países da África são alardeados em alto volume nos dias de hoje: castrações, torturas e assassinatos encaixam perfeitamente na narrativa da selvageria africana. Enquanto isso a homofobia dos países europeus, como da Rússia e da Chechênia, que recentemente matou, torturou e criou campos de concentrações para homossexuais, é raramente discutida. A masculinidade negra é, obviamente, opressiva e irracional, mas também deriva de um instinto desesperado de sobrevivência, preservação e autonomia. Isto não faz dela nem um pouco justificável; mas ajuda a entender certos pontos pelos quais ela reprime ainda mais os seus.

A escravidão colonial fez das pessoas negras propriedades de pessoas brancas. Não só a liberdade lhes foi cerceada, mas também toda agência, humanidade e livre-arbítrio. O estupro de escravas pelos seus senhores é uma das muitas facetas terríveis conhecidas da escravidão, mas os escravos também sofriam violência sexual por parte dos seus “donos”. O fato de os escravos estuprados serem propriedade dos seus senhores (e contextualmente menos humanos que os trabalhadores livres) os colocava numa posição de ainda mais inferioridade e humilhação. A desobediência não vinha sem punição física ou até morte. O desamparo era total. Sendo totalmente controlados, manipulados e usados, a masculinidade do homem negro era inferiorizada diante dos seus violadores, o que os levou a compensarem, por meio da hipermasculinidade, a dignidade que lhes era tirada. Era um requisito primordial que os negros fossem fortes, em ambos os sentidos: seu único poder residia em ser ao mesmo tempo másculo e dessensibilizado. Naquele contexto, não havia espaço para vulnerabilidade, pois esta era vista como fraqueza, e a fraqueza sempre estava perigosamente próxima da morte.

Como todos os danos que a escravidão causou às pessoas negras, este persiste até hoje. Para os negros, as relações afetivas entre homens, na época já condenada principalmente por motivos morais e religiosos, não estava distante da vergonha e humilhação sofrida por vários escravos. Submeter-se por vontade própria a uma relação com outro homem era deliberadamente se colocar na posição inferior que por muito tempo lhes foi forçada.

Um dos pilares em que a masculinidade se apoia é a desafeição. A masculinidade tradicional não dá espaço para qualquer sensibilidade . Esse sentimento se multiplica na masculinidade negra. Os negros precisavam aprender, desde a primeira infância, que esta é a maneira certa de se viver. Por serem a parte mais explorada pelo capitalismo, os homens negros tinham que, como obrigação, ser provedores. Não havia espaço para sensibilidade. Não havia tempo para sensibilidade. A indiferença de alguns pais negros aos seus próprios filhos muitas vezes vêm de um sentido inconsciente de proteção. A vida de quem está suscetível ao ódio genocida está sempre em risco. Os negros deveriam aprender a serem invulneráveis desde a primeira infância. A misoginia atribuiu às mulheres todos os traços de personalidade ligados à fraqueza. Chorar, ser afetuoso e conversar sobre os sentimentos são atos associados à feminilidade até hoje, e tudo isso foi e é reprimido com força descomunal nos jovens negros. A eles bastavam seguir essa realidade até que fosse a hora deles mesmo a reproduzirem. A pele negra masculina tinha de ser dura como pedra, pois ela, nessa dicotomia de gênero, ao mesmo tempo é a responsável por proteger os seus suportando alguns golpes e contra-atacando outros. Os traços atribuídos ao feminino, visto como inferior, era em um homem uma sentença de morte. Os jovens negros, na fase em que mais precisavam ser amados, eram ensinados a se despir e a não desejar esse amor, um luxo que simplesmente não podiam ter. As pessoas negras no Brasil têm menos tempo de liberdade que de escravidão. Por mais que somos condicionados a pensar que a escravidão aconteceu em um passado muito, muito distante, ela foi abolida há 130 anos. Geracionalmente, estamos muito próximos dos nossos antepassados que não eram vistos como seres humanos, e a visão da masculinidade negra daquele período é uma das máculas que nos foi imposta e que carregamos, e esta mancha não empalideceu até se tornar menos perceptível. A gigantesca homofobia intrarracial que os negros sofrem hoje são fruto de um processo que nos é único, e que influencia de maneira negativa a vida de muitos homens que não se enquadram nos padrões estabelecidos pela masculinidade negra.

Moonlight: ser tocado

O filme Moonlight, de 2016, dirigido por Berry Jenkins, é um triunfo lotado de triunfos. Seu impacto grandioso é imediato, mas ele continua existindo em várias mentes que vez ou outra se lembra dele e é igualmente impactado como se estivesse pela primeira vez vendo aquela narrativa tão bonita e precisa. São vários os pontos que o filme atinge sutilmente, alcançando em suas nuances pontos fundamentais para entender a trajetória do protagonista Chiron.

O filme é dividido em três atos: a infância, em que Chiron é conhecido como Little; a adolescência, quando usa seu nome real; e a vida adulta, em que é referido como Black. Já na primeira cena vemos Little ser perseguido por outras crianças. Juan, um traficante de poder em sua região, encontra Little e o leva para casa, onde ele conhece a namorada de Juan, Teresa. Little passa a noite na casa do seu novo protetorJuan se torna a figura paterna de Little, e, junto a Teresa, vai até o limite da sua sabedoria para que Little se sinta amado e aceito. Fora do ambiente de paz e afeição que Juan e Teresa o oferece, Little é cercado de violência. Sua mãe, Paula, além de ser negligente devido ao vício em crack, ataca o filho e, quando confrontada por Juan, revela que sabe que Little é perseguido por ser afeminado (“o jeito que ele anda”) e ataca o filho verbalmente. Little é tomado por confusão, e pergunta a Juan qual o significado de faggot, que em inglês a palavra mais pejorativa para descrever um homossexual. A maneira em que Jenkins captura Paula e Little refletem essa relação: uma bagunça desfragmentada. Nos fica claro que Little, antes de ser encontrado por Juan, não teve em sua vida uma figura paterna, ou qualquer outro familiar que lhe desse o mínimo de afeição. Little tem dificuldade em reconhecer o afeto, porque nunca o sentiu antes.

Juan leva Little ao mar, e o garoto sente a água em suas mãos como se fosse um carinho. Ensinando o pequeno Chiron a boiar, Juan o segura delicadamente. “Deite sua cabeça em minha mão. Eu te seguro, eu prometo, não vou te soltar”.  Às vezes água, às vezes céu, às vezes Little de olhos fechados em paz, a cena exala ternura. Dentro do mar, Juan parece carregar o menino em seus braços, um simbolismo muito simples e muito poderoso. É a primeira e única vez, nesse ato, em que Little é tocado com ternura, confiando ao mesmo tempo em Juan e em sua própria leveza.

No segundo ato do filme, Chiron está sentado na praia em que aprendeu a nadar quando é surpreendido por Kevin, um amigo da escola. Depois de uma breve conversa, mais uma vez uma mão é delicadamente colocada na nuca de Chiron, enquanto um dedo acaricia seu rosto. Eles se beijam sob a luz do luar, ecoando uma antiga conversa que Chiron teve com Juan no dia em que aprendeu a nadar. Enquanto Kevin masturba Chiron, vemos uma de suas mãos acariciando a parte de trás da cabeça de sua cabeça e de novo a ternura, tão rara no filme, explode com calor intenso em uma cena filmada num tom gélido. Chiron é novamente tocado por Kevin, mas dessa vez de forma violenta. A relação de Chiron com Kevin determina o caminho que o protagonista seguirá. A afeição é tão rara na vida de Chiron que nos é dada com um surpreendente minimalismo. A Chiron é negado novamente o carinho e o amor que ele experimentou tão pouco em sua vida. Por esses motivos, ele se fecha mais ao mundo ao redor, um lugar em que a felicidade e a aceitação dificilmente virão.

No terceiro ato, Chiron, já adulto, é referido como Black, em alusão a uma antiga conversa que teve com Juan e depois com Kevin. Chiron é másculo, sério e discreto, como se quisesse que sua presença fosse ao mesmo tempo invisível e ao mesmo tempo intimidante. A violência homofóbica o fez reprimir ainda mais o que é e o que sente. O silêncio que apresentava na infância e na adolescência o dominou, como se qualquer palavra que saísse dele fosse o trair. Black recebe uma ligação de Kevin, que o faz viajar até onde seu antigo colega de escola trabalha. Os dois rumam à casa de Kevin e, no carro, Chiron tenta abafar o barulho ensurdecedor do seu silêncio com o rádio. Chiron aprendeu a mascarar seu medo, seus sentimentos, seus desejos. Após rever e escutar o barulho do mar, presente nos dois momentos em que experienciou amor, Black troca palavras truncadas com Kevin. Depois de um momento de hesitação que dura apenas alguns segundos e toda uma vida,  Chiron pela primeira vez revela seus sentimentos. “Você é o único homem que me tocou. O único. Eu nunca mais toquei em alguém”. A última vez que vemos Black, sua cabeça está recostada no ombro de Kevin. Pela terceira vez uma mão acaricia com ternura a cabeça de Chiron. Pela primeira vez na vida adulta Chiron tem um contato físico e afetivo com outro homem. Esse toque perdura, por momentos no filme e para sempre na cabeça de alguns espectadores.

As três vezes que Chiron foi tocado, uma em cada ato do filme, foram os três momentos mais determinantes de sua vida. A excelência fílmica de Moonlight não se desdobra apenas nesses momentos, e analisar o filme como um todo em sua dimensão formal e na magnitude de sua história é um serviço que levaria alguns meses e muito mais palavras que essas. Mas Chiron, cuja solidão é transmitida em seu enquadramento, sempre sozinho, às vezes a câmera confrontacional indo contra seu rosto, como todas as forças no mundo que atuam ao seu desfavor; às vezes só em ambientes desolados. Mas nos momentos finais de Moonlight, Chiron não está sozinho. Ao fundo nessas três cenas, de intimidade familiar, com Juan, e intimidade sexual e amorosa, com Kevin, escutamos o barulho do mar, que é o símbolo perfeito do que se passa dentro de Chiron. As águas são ao mesmo tempo revoltas e ao mesmo tempo calmas. Mas Chiron é tocado. E, nesses momentos, o toque é tudo que realmente importa.

Estereótipos

O ator Jordan Gavaris, que interpretou o homossexual Felix na série Orphan Black foi criticado por sua atuação porque representou seu personagem com trejeitos afeminados, o que reforçaria certos estereótipos gays. Gavaris, também homossexual, reverteu a questão: qual tipo de gay é aceitável para o mídia? A maioria dos personagens homossexuais de filmes de ficção são representados como homens que se adequam perfeitamente à masculinidade, porque geralmente estão em conflito com sua sexualidade e a forma como essa afetará quem os vê. O Felix de Gavaris não age como se devesse esconder, disfarçar ou temer a si mesmo. Personagens gays afeminados são justamente os personagens gays menos retratados na ficção. Ser afeminado ainda significa, para muitos, inferioridade diante de gays “machos”. De novo frente a misoginia, um homem ter “jeito de mulher” é algo visto como degradante, e o preconceito direcionados a eles vêm tanto de heterossexuais quanto de homossexuais, que os preterem no campo sexual e afetivo e os abandona enquanto amigos e família por serem motivo de vergonha. A falta de representação de gays afeminados na mídia e na arte é uma das razões dessa hierarquia, que vem da mesma lógica que faz alguns homossexuais que são apenas ativos se acharem superiores a homossexuais versáteis e passivos.

Em Moonlight, a masculinidade de Chiron ecoa a de Juan. Já na adolescência, nenhum dos seus traços são afeminados, nada em seu comportamento revela sua sexualidade. Mas o filme mostra com perfeição todas as forças opressoras que fazem homens negros reprimirem qualquer trejeito que não seja “masculino”, sendo eles gays ou heteros. É raro ver expressões de afetividade entre homens heterossexuais, e ainda mais raro quando esses homens são negros. Essas forças opressoras fazem que alguns gays não assumam sua sexualidade até a vida adulta, ou nunca. Viver sendo negro e gay é andar em um campo minado, e muitos de nós precisamos de tempo para ter coragem de andar num território tão assustador. Os fatores usados para definir a masculinidade, como voz, trejeitos e vestuário são incorporados e acabam se tornando parte da sua persona – como você vai se apresentar ao mundo. O corpo negro é ao mesmo tempo hipersexualizado e rejeitado, então a construção social que nos é imposta não vem sem dor, confusão e dificuldades de aceitação. As expectativas quanto ao homem negro é geralmente o animalesco. Por isso, para muitos, é difícil lidar com homens gays negros afeminados, pois eles revertem tudo que é esperado deles, e a introspecção alheia não aceita o contrário do que está gravado em pedra.

Libertação

É bastante comum a frase “Você não parece gay”, ainda mais se tratando de homens negros. Às vezes é surpresa, às vezes é incredulidade, às vezes tentam fazer parecer um elogio. O que não é. O “não parecer gay” é fruto de uma repressão heterossexista religiosa em que o homem cisgênero negro e gay aprende a calcular e controlar todos seus movimentos, porque são vistos com repulsa e desaprovação. É fruto de anos de frases como “fala com voz de homem” ou “tira essa mão da cintura” e abuso físico contra qualquer característica discordante da masculinidade. No fim, todos os gays são julgados a partir de estereótipos, mas no caso dos gays negros a pressão para se reprimir é massacrante. E, como é o caso em qualquer minoria, sua narrativa não é controlada por você até você tomá-la. O que esperam de você é o que vai pautar suas relações. Não estar nos conformes desses estereótipos ao mesmo tempo definitivos e inatingíveis, gera julgamento: você se odeia, você tem vergonha de ser gay, você não tem orgulho de ser gay, você inferioriza outros gays, você está se escondendo; você só quer chamar atenção, você é escandaloso, você não é homem. É uma existência cercada de amarras e em que sua identidade é amorfa. Em Moonlight, Chiron diz a Kevin que se construiu do nada depois que mudou de cidade. E esse é um processo de construção que muitos homens negros gay passam para evitar a violência que sofreram toda a vida. No final, Chiron ainda tem dificuldades em lidar com sua identidade, pois ela foi elusiva até sua vida adulta. Chiron é um produto de sua vivência. Chiron se tornou quem se tornou, e muito provavelmente não vai mudar o que está enraizado. Mas, sendo sincero a Kevin, foi sincero consigo mesmo.

A maioria dos homens negros gays que saem do armário numa idade considerada tardia ou que continuam no armário raramente sentiram carinho afetivo na adolescência, pois é um período de desespero e medo em que se libertar parece impossível, e se relacionar dentro da sua verdade não é uma opção. Isso cria uma dificuldade em aceitar que você pode e merece ser amado, e o motivo de muitos homens negros gays se isolarem das comunidades que fazem parte porque pensam que a aceitação – que no fundo nada mais é que lhe ser concedido humanidade e respeito – nunca virá.

Moonlight não nos revela muitas partes da vida de Chiron, apenas passos da sua trajetória que ainda não teve fim. Os três atos do filme giram em torno da mínima quantidade de ternura e afeição que ele teve até li. Barry Jenkins disse que queria filmar a vida real.

E, por experiência própria, poucas vezes um filme chegou tão perto de capturar a complexidade que é a experiência de se construir num meio tão opressivo.  Ver a libertação de Chiron, mesmo que apenas no início, mesmo que ainda travada, validou vários sentimentos e emoções dentro de muitos.

É difícil acreditar que um filme como este realmente aconteceu. Mas aconteceu, e poucas vezes senti uma obra de arte tão próxima a mim. Chiron me tocou todas as vezes que se sentiu não tocado. E o que é a arte senão o melhor meio de se relacionar com o mundo e alterar suas percepções sobre a vida? Moonlight alcança a façanha de ser ao mesmo tempo vida e ao mesmo tempo arte. E é formidável enquanto os dois.