Post

O que somos

In Testemunho on April 28, 2012 by darllamcruz

Um outdoor na Irlanda me fez rir.

Ele dizia mais ou menos: “No nosso país, mais de 5000 pessoas estão sem-teto. Você pode ajudar a mudar isso”. O modelo que interpretava o mendigo estampado no outdoor era a cara do Gael García Bernal.

Primeiramente, a única coisa que eu consegui imaginar foi um outdoor-resposta do Brasil dizendo apenas “Irlanda, por favor”. Mas depois de rir, o anúncio me fez pensar.

Não consigo imaginar aspectos em que a Irlanda e Brasil se aproximem. A Irlanda é uma ilha enquanto o Brasil é quase um continente. Nós somos sol e mesas nas calçadas e copos americanos, eles são frio e pubs com aquecedores e cervejas servidas sem hipocrisia, de meio em meio litro. E, principalmente, a nossa herança histórica constituiu realidades totalmente distintas. Na Irlanda, as pessoas nos outdoors ou pedindo dinheiro nas pontes são eles mesmos. O povo irlandês. Ao passarem diante dos outdoors, é mais difícil para eles desviarem o olhar, porque eles podem se enxergar ali. No Brasil temos mundos separados, claramente marcados em suas disparidades físicas. São esferas separadas, com problemas separados. E cada um desses mundos que resolva os seus problemas, sem ajuda ou interferências. Nossos mendigos não são Gaéis. Por isso é mais fácil virar o rosto diante dos outros, em outdoors ou não, porque eles são integrantes de uma realidade diferente.

Se os nossos pobres, os nossos excluídos e sem-tetos não fossem tão diferentes dos que vivem no mundo em que isso “não existe”, os moradores desse outro mundo talvez estariam mais dispostos a ajudar? Ou pelo menos um pouco menos ávidos por combater políticas sociais direcionadas a eles? Não sei. Mas as recentes reações contra as cotas raciais, ou, em um nível menos específico, contra um governo que tem como meta diminuir um abismo que muitas vezes é visto como uma rachadura, mostra que é essa a tendência: olhar para o outro lado, ou para o meu próprio mundo, porque lá está tudo bem. Zombam do lema “País rico é país sem pobreza”, porque o país deles está rico o suficiente, obrigado.

É de novo a questão da minoria. No final do ano passado, uma estagiária negra foi aconselhada a alisar seus cabelos para que se adequasse ao padrão da empresa em que trabalhava. É um problema triste e revoltante em si só, mas que foi agravado pelo fato de um colunista dizer logo no título do seu texto que isso não era “nem injustiça, nem racismo: o mundo é assim”. É normal ter que se acomodar a um padrão, pois de outra forma você não tem valor. As minorias no Brasil vivem com o problema das conjunções adversativas, que aprendemos mais ou menos na quarta série e seguimos usando para perpetuar preconceitos. Tudo bem você ser negro, mas não seja tão negro assim.

Enquanto isso, usamos a imagem do “povo brasileiro” como um véu ornamentado para cobrir o racismo e fingir que está tudo bem. Temos capas de revistas para afirmar que “Raça não existe”, comentaristas que falam que aprovar as cotas raciais é negar a miscigenação, um livro chamado “Não somos racistas”. Eu não tenho útero, então não saio por aí falando que cólica menstrual nem deve ser tão ruim assim. As pessoas por trás dessas afirmações não têm uma gota de melanina. E reclamam que, ao irem contra a política de cotas, são automaticamente consideradas a elite branca.

Bem, vocês são. E não estão ajudando.

Post

Clichê

In Testemunho on February 13, 2012 by darllamcruz

Então, estou na Irlanda.

Porque eu pensei: qual é a melhor hora para passar uns tempos na Europa? Claro que quando ela está se afogando na crise e com os níveis de xenofobia na estratosfera.

Mas desconfio que eu e a Irlanda nos daremos bem. No primeiro dia, enquanto eu turistava pela cidade, eu vi um cara enfiar a mão dentro do casaco e tirar um copo de cerveja. Cheio.

Eu quase cheguei pra ele e perguntei “Como você fez isso, Mr. M?”, mas nem precisou. Meu coração já estava fisgado.

Dias depois nós estávamos procurando apartamento e entramos em uma imobiliária, e a moça disse que infelizmente não tinha um apartamento como a gente queria. Um senhor bem apessoado que estava lá disse que tinha, sim, um apartamento assim, o que ele estava reformando, que era ao lado e ele queria nos mostrar. Ele tinha um sotaque engraçado, mas quando ele não conseguiu abrir a porta eu percebi que era porque ele estava mais bêbado que eu no Natal. Isso porque era o horário do almoço, e claro que ele, que sabe viver a vida, almoçou três doses de uísque. Quando ele cambaleou escada acima e nos mostrou aposentos que ele não fazia ideia do que era, tropeçando nos materiais de construção, meu coração tirou o sutiã e a calcinha e pulou na cama. Assim é jogo sujo.

Tirando isso meus xavecos estão com uns 30% de aproveitamento, o que você pode não achar muita coisa, mas fiquem sabendo que essa taxa é cerca de 30% maior do que era no Brasil. A maioria das moças balança o meu coreto, já os caras me deprimem porque eles são muito mais bonitos que eu, mas são boa gente e te dão dicas sobre as mulheres o tempo todo, principalmente quando vocês estão segurando seus respectivos pênis no mictório.

E o melhor é que eu posso usar minha jaqueta.

E eu uso.

O tempo todo.

Post

Evolução

In Testemunho on December 20, 2011 by darllamcruz

Nós já estávamos suficientemente felizes com nossos polegares opositores, que facilitavam imensamente tarefas fundamentais para a sobrevivência, como a caça e o amor próprio. Mas queríamos mais, e decidimos que seria legal desenvolver um cérebro capaz de raciocínio abstrato. Depois esse atributo foi alardeado – por nós mesmo, veja só – como a epítome da evolução.  Esse é o motivo pelo qual lá na segunda série a tia Berenice explica que o que nos diferencia do resto dos animais é a nossa fabulosa capacidade de raciocinar. Mas nós não fazemos isso muito bem, fazemos? Passamos muito tempo enganando a nós mesmos, tomando como evolução o que na verdade é uma anomalia grave. E não temos ninguém a culpar senão aquele que começou isso tudo: o cérebro.

Luis Fernando Verissimo escreveu: “O cérebro humano é uma coisa tão complexa que nem o cérebro humano é complexo o bastante para entendê-lo”. Eu nem comecei a entender. Toda essa incapacidade do ser humano de se entender é apenas a incapacidade de entender o cérebro. Por isso às vezes estragamos um domingo de ressaca com existencialismo.

Precisava ser tão complexo? O cérebro não sabe perder, não sabe lidar, vê problemas onde não têm, te faz tratar mal quem você deveria tratar bem e te faz querer agradar quem você deveria tratar a golpes de telecatch. Às vezes funciona como um partido de oposição interno. Claro que você quer sair do sedentarismo e talvez até saber como é colocar um vegetal folhoso verde-escuro na boca, mas no seu cérebro está acontecendo uma manifestação com faixas como “FIQUE NO SOFÁ, VEJA CHAVES” e “SALADA NÃO, PIZZA SIM”. E ele é mais forte que a gente.

Eu não vejo nada de racional na maneira com a qual levamos a vida. A raça humana conquistou muito (falo da internet), mas continua dada a dependências e preconceitos bobos. Nós baseamos nossas vidas em coisas chatas e esquecemos o que realmente vale a pena. E é também com nosso cérebro desenvolvido que percebemos que a Terra está claramente com um fluxo menstrual intenso, mas ao invés de providenciarmos um absorvente tamanho grande nós a estamos socando no nariz para ver se conseguimos também uma hemorragia nasal.

Mas cedo ou tarde a seleção natural vai dar um jeito nisso, e o mundo será dominado por aqueles que realmente são os animais mais evoluídos do planeta: os ursos.

Os ursos são um dos poucos animais agraciados com o melhor feature da evolução: a capacidade de hibernar. Todos que viram Pica-Pau sabem como funciona: eles comem até atingirem o limiar da morte para depois dormirem uma singela sesta durante todo o inverno. Uma estação. Três meses.

Todos os anos eles passam por esse ritual que é quase uma nova gestação. No final, ressurgem de suas poças de baba como que da placenta materna, prontos para mais um ano de sashimi e mel – um ano encurtado em três meses. E se você chegar sem respeito na quebrada dele, ele irá acordar, te destruir em uma luta mais rápida que qualquer uma do UFC, virar para o outro lado e continuar dormindo. A evolução permitiu que os ursos baseassem sua vida no que realmente importa: comer e dormir.

Quem dera ser um urso. Isso sim é vida. Isso sim é evolução.

Post

Comédia

In Testemunho on December 6, 2011 by darllamcruz

Já ouvi muito sobre como as comédias românticas estragaram a vida das mulheres. Sobre como se elas fossem a Jennifer Lopez e enfiassem o salto no buraco de um bueiro com um ônibus vindo em alta velocidade na direção delas, tudo que elas precisariam fazer era fechar os olhos que do nada um homem de 1,90m e dentição perfeita surgiria para salvá-las e, por que não, engravidá-las momentos depois na beira de um rio sob a luz da lua. Mas, em qualquer outro caso, tudo que elas podem esperar é por um enterro com o caixão fechado.

A verdade é que comédias românticas são inofensivas, se você tem a cabeça no lugar. Agora se você é naturalmente predisposto a viver em um mundo perfeito de fantasia que existe apenas dentro da sua mente, comédias românticas são um risco. Maior que o crack, eu diria.

E esse risco não faz distinção de gênero, assim como o crack. Não sei por que estou demonstrando tanto conhecimento de causa sobre o crack, mas eu atesto que não existe sexismo com meu cromossomo y que eu juro que tenho – se ele não aparece muito é porque gosta de fazer essa brincadeira onde ele se esconde porque finge que está com vergonha.

Eu fui criado por filmes, e nunca tive preferência entre os gêneros, ou essa é apenas uma desculpa para justificar meu apreço por comédias românticas. Mas sim, eu assisti muitas e vi de tudo acontecer. O problema é que por mais tempo que eu gostaria de admitir eu achei que minha vida deveria ser uma comédia romântica. Eu também achava que a vida deveria ser um western ou um filme de ficção-científica, mas tinha noção que seria mais difícil encontrar um índio apache amigo ou um alienígena endoparasitóide com sangue corrosivo que uma vida amorosa descomplicada e satisfatória. Eu estava errado.

Um dos problema das comédias românticas não é a ausência de problemas, mas sim a solução deles. Ou o fato de nem serem problemas reais, apenas mal-entendidos estúpidos que podem ser resolvidos se você atravessar a cidade ao som de uma música que concorreu ao Grammy de melhor gravação pop e com uma pequena ajuda do destino que está sempre trabalhando para melhor servir.

Para mim o destino se parece menos com o funcionário do mês e mais com o serial killer da van branca que vai te estuprar por dez dias e depois te matar, mas nas comédias românticas ele faz tudo cai no lugar, como um jogo bem sucedido de tetris. Aqui fora dificilmente as coisas caem no lugar. Pelo contrário: o destino só manda a filha da puta daquela peça que não encaixa em lugar nenhum e a bagunça vai se aproximando cada vez mais do topo até você desligar o minigame em desespero para não presenciar a sua morte e o GAME OVER escrito na tela. Ignorar isso porque existem muitos filmes com a Julia Roberts fez com que muitas pessoas enchessem as cabeças de ideais inatingíveis, como é o caso de algumas prostitutas que ainda perambulam à noite no Hollywood Boulevard com suas botas de couro e salto alto à espera de uma nova vida.

Aquele encontro bonitinho, que está em todos filmes e que você conhece bem, já vem pra mim com um erro conceitual. Na maioria das vezes que eu encontro uma pessoa interessante eu estou parecido com um hippie daltônico, e isso não é bonitinho. E eu não acho que eu vá encontrar a mulher da minha vida numa livraria, quando nossas mãos se tocarem enquanto vão em direção ao mesmo livro. Pode ser que eu me apaixone perdidamente por alguém se nossas mãos se encostarem enquanto vão ao encontro da mesma peça de bacon, mas dois segundos depois a racionalidade afloraria e nós estaríamos saíndo na porrada por aquele bacon. Outro exemplo: se eu cair, duvido muito que uma pessoa por perto me ajudará a levantar, e se ajudar, duvido ainda mais que ela vá se apaixonar por mim. Cair em público e falhar na vida estão ali lado a lado, e não acredito que uma mulher consiga olhar pra alguém caindo e sentir um torção no útero, pensando ”Porra, eu quero aqueles genes”. Dito isso, eu caio o tempo todo. Sabe quem me ajuda a levantar? Um amigo impaciente, falando que já tá na hora de eu largar meu copo, chamar um táxi e ir embora.

Ainda se os diálogos nessas situações fossem como nos filmes, desenvoltos e cheios de charme, pontuados por sorrisos e olhares que Snoop Dogg bem descreveu como pura sedução sensual. Até quando há algum desconcerto ou constrangimento é adorável, diferente de quando eu vou falar com alguém e rola aquela tensão sexual totalmente unilateral. As chances são que eu vá gaguejar e que meus olhos vão lacrimejar de vergonha. Depois todos meus poros se abrirão em uníssono iniciando uma sudorese que mata de desidratação em dez minutos, e sorte se eu não babar. Se ainda não estiver ruim o bastante eu sempre posso dar uma esbarrada num seio sem querer ou acertar a pessoa no olho com aquele jatinho de saliva que só sai quando ele tem vontade. Adorável.

Mas não levem a mal, eu continuarei assistindo comédias românticas, porque às vezes o ingresso do cinema é só três reais e ver um filme ainda continua sendo um programa melhor que viver. Vicia. Como crack.

E talvez o que falta é só alguém me falar que filmes e vida real são coisas diferentes. Mas por favor não façam isso, porque eu não sei se estou preparado.

Post

Metáforas para a vida

In Testemunho on October 25, 2011 by darllamcruz

Na primeira cena de Annie Hall, Woody Allen conta aquela piada das duas velhas que estão em um resort e uma reclama da comida para a outra, que responde “Não é? E porções tão pequenas”. Allen vê nessa piada uma metáfora perfeita para a vida. Ela é terrível e cheia de tristeza como comida ruim. E acaba cedo demais.

Outro dia eu estava em casa sem o que fazer, e a TV aberta não estava passando nenhum teste de DNA ou coisa legal assim. A única exceção era a TV Escola, onde passava um daqueles programas que eles compram do Animal Planet e dublam a narração com uma voz messiânica. O programa era sobre centopeias, mas não aquelas minúsculas que a gente não podia matar na infância porque senão à noite apareceriam cem na sua cama. Eram aquelas centopeias que a gente conhece como lacraia. Mas elas eram muito bem nutridas, porque se alimentavam de quaisquer animais que viam na frente sem cerimônia nenhuma, e tinham o tamanho aproximado do seu antebraço. Elas andavam pela selva daquele jeito horripilante, fazendo suas vítimas e trocando de pele. No final do programa, talvez para nos ensinar alguma coisa sobre esse mundo moderno, eles mostraram como uma assassina tão eficiente se torna vítima. Aí me aparece um sapo meio pré-histórico, do tamanho de um Bulbassauro, e come a lacraia. Tudo mostrado em detalhes e em câmera lenta: a língua do sapo se estendendo para pegar a lacraia, ela se debatendo com seu gazilhão de pernas com a metade do corpo que não tinha sido ainda engolida, e o sapo lá, bem de boa, empurrando a lacraia com as duas mãos para dentro da boca como eu e você comendo um Big Mac.

E eu assistindo.

Aí eu pensei que essa também é uma metáfora para vida, pelo menos para mim. A vida é um sapo comendo uma lacraia. Um espetáculo de horror quase insuportável. E a gente simplesmente não consegue parar de assistir.

E ainda confesso que fiquei esperando alguma coisa horrível acontecer com o sapo, tipo ele explodir ou sei lá, porque quem mandou comer uma lacraia?

Achem aí a metáfora que quiserem.

Post

Um Conto de Natal

In Testemunho on September 14, 2011 by darllamcruz

A história a seguir aconteceu naquela semana em que você deseja “Boas Festas” para os seus parentes que você não vê há anos mas que sempre estão com o mesmo cheiro estranho. Os dias exatos eu não sei, porque vocês sabem como é essa semana, aquele tumulto de álcool e comida que abre uma fenda no continuum tempo/espaço. Mas finjam que o espírito do natal estava presente para dar aquele ar de filme feito pra televisão que passa na madrugada do dia 24 e que só pessoas tristes como eu assistem.

Eu não tenho afeição por animais. Prefiro que estejam no meu prato e não pulando em mim com baba e soltando pêlos na minha comida. Mas não sou um monstro. Acho que pessoas que acham legal fazer qualquer tipo de maldade com animais devem ser punidas de alguma maneira pelo Shaquille O’Neal.

Acontece que um dia eu estava cuidando da minha vida, provavelmente ajudando minha mãe a ter espaço na geladeira comendo todas as sobras, quando escutei um gato miando debaixo do armário da cozinha. Eu me abaixei para vê-lo melhor e era um filhote, preto e minúsculo. Ele me mostrou os dentes e fez um barulho que eu acho que era para ser ameaçador, mas foi apenas enternecedor. A boca dele não era grande o suficiente para morder meu dedão, mas ele já agia com o mesmo instinto selvagem que eu quando me pedem um pedaço de pizza. Foi amor. Uma faceta desconhecida da minha personalidade, que eu chamo de Luisa Mell, aflorou. Eu jurei que não ia me apegar mas trinta segundos depois ele já tinha um nome.

O que dar para o pequeno Han Solo? Na geladeira só tinha Coca Zero, então julguei que ele ficaria mais feliz com leite em pó. Decidi que ficaríamos com o Han Solo porque fui tomado pela ternura ao vê-lo bebendo na xícara do meu irmão, que não sabe até hoje que ela foi utilizada para esse fim. Claro que eu iria embora no outro dia e não teria trabalho nenhum para cuidar dele, então fui avisar minha mãe do novo membro da família que estava sob a responsabilidade dela. Ela recusou, com o argumento que já tinha criado uma criatura que dorme 80% do dia, muito obrigada. Eu e Han Solo ficamos machucados. Mas eu acharia um lar para ele.

Liguei então para uma amiga que teve gatos a vida inteira (e eu acho sensato se preparar para uma velhice solitária, se o pior acontecer) para ela me ajudar a pegar o Han Solo e levá-lo até uma dona que, desculpem – não tem outra maneira de descrever – é a Dona Louca dos Gatos. Capturar o gato de verdade foi uma ação que se desenvolveu, sem exageros, por seis cômodos da minha casa e que deixaria os Irmãos Marx orgulhosos. Ela tinha mais medo do Han Solo que eu, que sofro de alergia auto-imposta. Eu mesmo tive que pegá-lo e colocá-lo numa caixa no banco traseiro do carro para levá-lo para sua nova família adotiva.

A Dona Louca dos Gatos não nos atendeu, provavelmente porque ela está morta há 17 meses e ninguém percebeu porque sua dúzia de gatos alimentaram-se do seu cadáver antes de fugirem. Não encontramos nenhum outro lugar para ele. Desesperança, tristeza, uma música triste e aquele momento em que tudo parece perdido.

Mas de repente minha amiga se lembra que ouviu a história de uma gata que morava algumas ruas acima da minha e que miava desconsolada a noite inteira porque tinha perdido seu filho. Agora pare e reflita.

Não estamos mais lidando com um gatinho abandonado. Estamos diante de uma dramática história da mãe desesperada com a perda do seu indefeso recém-nascido que faria qualquer espectador da grade aberta da tevê brasileira chorar e que, com um pouco de sorte, poderíamos até vender para a Disney. Um problema era que o dono da gata não queria o gatinho. O que era perfeito, porque ele tem um nariz estranho e bem pode ser o vilão, que era o que essa história precisa porque sem um pouco de maniqueísmo não se consegue entrar em Hollywood.

Fomos para a rua da suposta mãe do Han Solo, paramos na esquina oposta para que o temível vilão não nos visse, colocamos a caixa no chão e esperamos pelo melhor. Ele miou três vezes. Depois de um tempo, um miado foi ouvido em resposta. Um gato e uma gata apareceram no outro lado da rua e vieram ao encontro do seu filho perdido.

Foi uma cena de reencontro familiar que deixaria o Gugu com inveja.  Nós conseguiríamos, fácil, 18 pontos de ibope na tarde do SBT. Até meus olhos se encheram de lágrimas, mas foi por causa da alergia. Não sei se fiz certo ao retorná-lo para a sua família, já que o cara que cuidava da gata não o queria, mas quem sou eu para me colocar no caminho da mãe-natureza. Na minha cabeça, eles fogem da casa depois de maus tratos e formam uma gangue de gatos de rua em que o destemido Han Solo é o líder, tendo ele assim os melhores números musicais. Os executivos da Disney se perguntam se isso são planos para uma sequência. A resposta é sim, podem entrar em contato.

Não foi dessa vez que relutantemente virei melhor amigo de um animal. Mas, como coisas estranhas costumam acontecer na minha vida, provavelmente da próxima vez que eu chegar perto do oceano iniciarei uma inusitada mas bela amizade com um esperto golfinho. E serei interpretado no cinema por aquele filho chato do Will Smith.

Post

Jó da Nova Geração

In Testemunho on August 1, 2011 by darllamcruz

Vocês conhecem a história de Jó? Se vocês não tiveram uma infância na qual a saudável leitura da Bíblia era recorrente, a contarei com apenas um pouquinho de licença poética.

Jó era um cara legal, rico pra caramba, tinha uma família feliz, um adesivo da família feliz atrás de sua biga e milhares de escravos que, segundo consta, jogavam caxangá. Ele gostava muito de Deus e Deus gostava dele, mas, insatisfeito de manter o seu amor para si, Deus foi se gabar para o Diabo, que estava na dele, sobre o tanto que Jó era parceiro. Tipo casal que precisa trocar juras de amor eterno no Facebook. Claro que o Diabo não curtiu isso.

- Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal?

- Ahn?

- Eu tenho um servo legal e você não te-em.

- Pfft.

- Sério, quem na Terra é brother seu assim?

- Muito fácil ele ser Seu brother, não?

- Como assim?

- Eu também seria Seu melhor amigo se tivesse a sorte que ele tem, ou que Você deu pra ele.

- Do que cê tá falando?

- Sério, tira alguma coisa dele pra ver se ele fica do Seu lado.

- Rá, boa, não vou cair nessa.

- Então tá. Agora dá licença que tenho que terminar de lixar as unhas.

- Cala a boca você, faz o que quiser com ele, vê se eu me importo.

E vocês conhecem o Diabo. Ele fez Jó perder tudo quase que instantaneamente: família, saúde, bens. Mas Deus estava certo, Jó não blasfemou contra ele. Pelo contrário, ele se levantou, rasgou o manto, raspou a cabeça ao som de Love by Grace, se jogou no chão e adorou a Deus falando que pra ele tava de boa. Ao invés de falar “Me dá um abraço, toma tudo de volta, eu te amo”, Deus ainda não estava convencido e deixou que o Capeta enchesse a Jó de úlceras malignas dos pés até a cabeça. Pessoas legais, te digo.

No final Deus recompensa Jó por sua perseverança no sofrimento, o dando o dobro do que ele tinha anteriormente além de uma máquina de fazer fraldas. Há nessa história uma moral, como o valor educador do sofrimento ou algo que o valha. Eu acho apenas sacanagem, mas essa é só minha opinião. Deve ser por isso que, muitos anos depois, outra rixa rolou entre o Bem e o Mal, e ao invés de resolverem isso como duas pessoas civilizadas, num jogo de xadrez ou numa partida de Winning Eleven, acabou que me escolheram para ser o Jó da nova geração.

De repente, tudo começou a dar errado pra mim. Foi como no filme Um Homem Sério, dos irmãos Coen. E mesmo quando eu penso que vou ter uma vitória, é só mais uma brincadeira marota dos dois. Não é apenas uma falta absoluta de sorte, mas uma presença constante de azar. É uma situação meio triste, mas não vou reclamar, apenas quero falar alguma palavras aos responsáveis.

Primeiro, Deus, com todo o respeito e sem querer questionar seus meios divinos, mas algumas coisas estão erradas. Em primeiro lugar, eu deixei de ser católico há um tempo já e a única fé que tenho ultimamente é em torta de pizza. Além disso, minha lealdade é flexível e fibra moral não é o meu forte. Em outras palavras, por muito menos que isso eu negaria minha mãe e o Woody Allen. Então, Deus, não tente a Sua sorte. Segundo, eu guardo rancor de coisas que fizeram pra mim na segunda série, então não sou o exemplo perfeito de retidão. Talvez seja a idade, sei lá. Olha isso aí.

E quanto ao Diabo, que papelão. Você tem o emprego dos sonhos, em que você pode apenas ficar sentado com uma cerveja na mão enquanto vê o martírio das pessoas, tipo a gente quando assistimos um reality show de perda de peso. Sério que você ainda tira um tempo pra fazer isso comigo? E você sabe que cedo ou tarde eu vou acabar aí mesmo – e o meu inferno bem deve ser um reality show de perda de peso – porque quem me vê rindo de velhinhas caindo no YouTube sabe bem que não tem jeito de eu ir pro céu. Então você pode esperar até eu morrer pra isso, já que com essa quantidade de bacon que eu ingiro eu não devo chegar aos 30.

Eu só queria pedir, respeitosamente, que isso pare. Ou que vocês façam essa brincadeira com outra pessoa, se vocês quiserem eu providencio uma lista de nomes. Porque eu já estou naquele momento em que tudo que você quer é parar de lidar, juntar economias o suficiente para comprar uma televisão tão grande que você não sabe onde ela termina e a vida real começa e um Playstation 3 pra poder ficar radicado em paz no meu quarto, onde a única frustração que terei será não conseguir passar de uma fase de GTA. E ser sustentado pelos meus pais até eles descobrirem que não existe um curso de 80 períodos e depois viver de golpes e pequenos furtos como a Precious – pedindo uma coxinha, falando pra moça ir pegar uma saladinha porque você quer manter o corpo em dia e aproveitar a ausência dela pra sair correndo. Isso sim seria felicidade.

E eu também aceito minha recompensa, obrigado, mas temos que repensar esse sistema de me dar em dobro o que eu já tinha porque dobro de nada é nada e essa matemática até eu consigo fazer, então não tente me passar pra trás.

Pelo visto, vocês dois ainda não se cansaram desse jogo infantil e isso ainda está longe de acabar.

Mas olhem bem para minha cara de quem está curtindo muito a brincadeira.

Post

A Jaqueta do Destino

In Testemunho on June 6, 2011 by darllamcruz

Para mim, não há experiência pior que comprar roupas. Eu odeio, tenho medo, suo pelas mãos, hiperventilo, tenho que respirar num saco de papel. É uma experiência excruciante porque eu não consigo suportar toda aquela pressão. Os vendedores passaram por um treinamento intensivo para pegar você, pessoa fraca de coração. E eles conseguem.

Eu sofro para comprar coisas simples, como, por exemplo, uma camisa.

- Que modelo?

- Normal. Lisa. Não, moça, coisa que brilha não é normal. Nem ideogramas chineses que significam “Socorro estou preso em uma fábrica clandestina em Dongying”. Moça pára de tirar essas camisas do plástico. Moça pára de abrir todas essas camisas, essa frase em inglês nem faz sentido. Moça? Moça?

- Essa é linda, olha.

- Acho que é feminina.

- Você não gostou de nenhuma?

- Err, não.

- Tudo bem. Obrigado por ter feito eu ter tido todo esse trabalho pra você não levar nada. Não é como eu dependesse da comissão pra alimentar meu filho e sustentar o vício do meu pai em jogos. Não, não estou chorando.

- Pensando bem eu gostei dessa. Vou levar.

- A feminina?

- Sim. Você tem uma bolsa que combina?

Mas um dia eu me deparei com uma jaqueta de couro marrom que me olhou nos olhos e disse “Seja tudo que você pode ser”. Só de ver aquela jaqueta eu percebi que ela tinha uma mágica que iria me transformar, automaticamente, em um diabo sexy. Minha voz enrouqueceria como se eu tivesse fumado por 37 anos, meu sorriso ia brilhar mais que o do Bon Jovi e eu conseguiria conquistar qualquer menina do mundo desde que respeitadas as devidas restrições (se achar gorda, ter problemas com o pai, autoestima baixa e uma dosagem de 0,8 gramas de álcool por litro de sangue).

Pedi para experimentá-la. Diante do espelho eu pude ver as chamas da sedução brotarem nos meus olhos. Eu estava sexy. Eu poderia ir a um jantar na Casa Branca com essa jaqueta e a Michelle Obama elogiaria meu físico. Eu poderia circular livre e imponente em uma festa da Victoria’s Secret com minha namorada, a atriz e modelo ucraniana Olga Kurylenko. Eu poderia cruzar a Itália na garupa da moto do George Clooney, e não, eu não me importo com o quão homoerótico isso soa.  Mas de repente eu vi o preço, e o que se deu foi exatamente o que aconteceu com o Seinfeld no episódio The Jacket. E como eu só vi o episódio depois de comprar a jaqueta, já processei o Larry David pelos royalties. Eu queria muito ter a jaqueta mas ela era tão cara que eu talvez precisaria leiloar o meu fígado pra comprá-la, e Deus sabe que eu preciso dele. Mas como eu tenho noção da vida, devolvi-a para a moça e voltei pra minha casa para aceitar a minha realidade com uma sessão bêbada de quatro horas de The Sims 3 e depois chorar no travesseiro até dormir.

Mas acontece que minha mãe não tem noção da vida.  E seu maior sonho não é conhecer o Fábio Jr., como uma mãe normal, e sim que eu compre roupas. E nada a faz sofrer mais do que o estado atual das minhas calças.

- Mãe, acabei de matar um cara, pus a arma contra a cabeça dele, puxei o gatilho e agora ele está morto.

- Aham. E que calça você tava usando?

- Aquela que rasgou, e eu nem sei por quê, ela só tem quatro anos.

- VOCÊ QUER ME MATAR DE DESGOSTO!

Eu a contei da jaqueta, e vendo que pela primeira vez na minha vida eu demonstrei interesse por uma roupa, ela correu até a loja e a comprou.

Claro que eu protestei veementemente, como um bom filho. “Não, mãe, é muito cara, OLHA SÓ PARA OS MEUS OMBROS NESSA COISA!”. Sério, se essa jaqueta fosse uma carta de RPG ela se chamaria “Jaqueta do Destino Carisma +7 – Use-a e seja lindo”. Numa escala de 0 a 10, o meu carisma atingiria um 2. Talvez eu devesse mesmo ficar com a jaqueta.

E foi o que eu fiz. E sim, como o querido Jerry Seinfeld, também fiquei andando com ela pela casa.

Mas aí vem um obstáculo na história: eu esqueci que eu moro num país tropical e talvez meu único uso pra jaqueta seria mesmo vesti-la enquanto via televisão na frente do ventilador. Vamos ser sinceros, na maioria das vezes nós só vestimos roupas de frio porque elas ficam lá no guarda-roupa por muito tempo sem utilidade alguma. E mesmo quando faz frio no Brasil, não é um frio que clama por medidas desesperadas, como couro ou pele de arminho.

Desde que comprei a jaqueta, só a tinha usado umas duas vezes. Então, com a queda de temperatura, decidi que ela vai ter que pagar o seu preço em elogios e resolvi usá-la em todas as oportunidades que tiver. Churrasco meio-dia? Espera um pouco, só vou pegar minha jaqueta. E usei a chegada das minhas amigas frentes frias como desculpa para colocá-la pela primeira vez desde que vim pra cidade grande vencer na vida.

O que pude perceber é que existe um pacto subentendido entre as pessoas, algo como “Vamos todos fingir que está muito frio porque ficamos bem mais bonitos com essas roupas”. As pessoas que passavam de cachecol, sobretudo e botas piscavam para mim. Eu fazia parte de um clube. Nos encontros nós tomamos chocolate quente segurando a xícara com as duas mãos.

Se teve algum efeito na minha sensualidade? Não, nenhum. Mesmo com a jaqueta eu continuei tão atraente pras mulheres quanto uma verruga bovina. Pelo visto minha lendária repulsividade é incorrigível.

Mas porra, como eu me senti legal. A jaqueta e a embriaguez, dessa vez literal, me deram um sentimento liberador que eu acho que deve ser o que as pessoas que possuem autoestima sentem. E quando me perguntavam se eu estava com calor, eu apenas respondia que não, displicentemente, enquanto um filete de suor surgia em minha têmpora esquerda e desaparecia na minha barba.

Post

Obrigado à Família

In Testemunho on May 17, 2011 by darllamcruz

Minha relação com minha família, como tudo na minha vida, é engraçada. Existe amor mas também existe uma caixa de emergência com rum e Coca que só é aberta quando eu preciso de ajuda para sobreviver às visitas parentais. Se você tem a minha sorte, chega uma hora em sua vida em que todos os seus relacionamentos deixam de ser normais e começam a parecer coisas do prime time americano. Dito isso, se tivesse de voltar a morar com os meus pais eu iria enlouquecer e definhar lentamente. Eu pararia de fazer a barba e nunca sairia de casa. Eu dividiria a cama com os esqueletos dos meus pais e quando eu fosse velho e já uma lenda urbana, crianças jogariam pedras na minha janela e sairiam correndo.

Frequentemente eu sinto saudades da gostosa conveniência daquela época quando as coisas pareciam se materializar como mágica: comida, roupas, massagens nos pés. Mas é parte da vida, acho, ter que lidar com isso. Ou não, como eu faço, e ter anemia por não comer aos domingos devido à preguiça de sair do apartamento, confeccionar cuecas usando panos de prato e alfinetes porque você não quer lavar as suas e ter que negociar com mendigos por um pouco de alívio muscular.

- Tem algum trocado pra me dar?

- Sim, mas em troca você vai ter que esfregar meus pés. Gentilmente.

Mas eu não sou um ingrato. Pelo contrário, sou infinitamente agradecido por tudo que meus pais fizeram por mim, e não é pouca coisa. Mas algumas eu considero em bem maior escala que outras. Como exemplo:

1. Reparo e restauração

Eu fui um bebê bonito. Mas o tempo é traiçoeiro e quando eu tinha uns seis anos já dava pra perceber que eu não teria ao meu favor a qualidade da beleza. Mas se hoje eu sou assim, imaginem vocês que eu poderia ser pior. Eu sei que é difícil conceber um cenário tão horrível, mas alguém precisa mostrar para os jovens que o mundo não é bonito.

Minhas pernas eram muito, muito tortas. Minhas rótulas estavam apaixonadas e se recusavam a não se encararem o tempo inteiro. Nos delírios do meu pai, eu seria um ótimo jogador de futebol porque minhas pernas eram iguais às do Garrincha. Bem, me provei uma decepção para ele e para mim, e fui levado a um ortopedista para que minhas pernas alcançassem um mínimo de paralelidade.

A cura para o que é chamado medicamente de joelho valgo eram botas corretivas. E eu as usei por mais ou menos um ano. Eu quero que isso fique claro, porque esse é só o início das minha lista de traumas que se forem postas no papel se estenderão como uma daquelas cartas de três quilômetros que as meninas mandavam para os Hanson. Elas eram pretas, tinham bico ligeiramente fino e um pequeno salto. Como eu não fui espancado até a morte pelos meus coleguinhas do pré? Eu não sei. Elas eram inclusive motivo de inveja da minha mais antiga amiga: “Por que você pode ter botas da Spice Girls e eu não posso?”. O importante é que minhas pernas são relativamente normais agora e meus dedões não vivem mais um belo caso de amor.

Como estamos falando de mim, esse era apenas um no meu infindo rol de defeitos. Chamavam o que eu tinha de língua presa, mas na minha opinião ela era solta demais. Eu falava de um jeito que só os homossexuais da indústria da moda conseguem sustentar com admirável respeito. Os meus ss se estendiam bem mais do que o desejado e se enfiavam também depois dos tt, o que era um ótimo recurso cômico para qualquer pessoa que não era eu. Fui levado a um fonoaudiólogo, e vários exercícios de fala depois, consegui parar de sibilar. Durante esse processo, descobri que o senhor fonoaudiólogo era meu único amigo e o condecorei Comandante da Real Ordem Vitoriana.

Quando meus pais perceberam que meu processo de expansão estava fora de controle, devido ao fato de eu ter conseguido uma massa gravitacional própria e já estar atraindo pequenos objetos, eles ficaram preocupados com a minha saúde e também tomaram medidas cautelares. Não funcionou, mas a culpa não foi bem deles. Me levaram a uma nutricionista que era feita de pura maldade.  Se as minhas palavras têm algum poder, ela e sete gerações suas estão fudidas, digo, amaldiçoadas. Peço desculpas a ela, aos seus filhos e netos. Os que vêm depois eu provavelmente não conhecerei, então isso é um problema deles.

Eu até tentei viver essa vida triste que ela quis me impôr, mas vida de iogurte light, de suco sem açúcar e de biscoitos água e sal sem qualquer tipo de acompanhamento não é bem uma vida. Eu me lembro de depois de algum tempo sofrer ataques de fúria glutônica em que eu comia tudo que existia na geladeira e nos armários e em casa e no universo. Durante um desses ataques minha avó perdeu parte da panturrilha.

Eu eventualmente consegui abaixar meu índice de massa corporal de forma que ele agora não conta mais com três dígitos. Parte pela sutil vigilância dos meus pais, que não queriam que eu não comesse o que eu gostasse, mas apenas impedir que meu sangue solidificasse devido  ao alto índice de gordura.

Mas eu ainda como bastante, e se eu virar a primeira múmia do mundo a ser conservada por esse processo, deixo a permissão para que meu corpo perfeitamente preservado seja exibido pelo mundo até o fim dos tempos, em 2227, desde que me montem nos museus sentado num sofá diante de uma TV que passa uma maratona interminável de Simpsons.

2. Seu nariz existe por um motivo

Desde uma idade muito nova meus pais me ensinaram sobre a importância de estar ciente dos seus odores corporais. Eles existem, nunca são bons e é nosso dever combatê-los. Parece bobagem, mas qualquer ser humano que já teve o mínimo de convívio social sabe que algumas pessoas convivem com o cheiro delas como se fosse uma coisa normal. Os pais dessas pessoas com certeza não fizeram elaborados rituais de purificação com frutas cítricas e bicarbonato de sódio com seus filhos. Essas simples e mínimas noções de higiene.

Algumas pessoas inclusive se vangloriam por ter um cheiro natural. Não é natural e você muito dificilmente vai atrair qualquer ser humano com olfato. Você não está liberando feromônios, e sim um cheiro semelhante ao de uma cebola embebida em cerveja que foi esquecida dentro de uma caixa no sol.  As pessoas não somente não estão dispostas a terem contato algum com você como vão te acertar com uma pá e despejar seu corpo no aterro sanitário. Estes não tiveram, como eu, pais que te recebiam depois de uma tarde isenta de antitranspirante e repleta de brincadeiras na rua com um “Filho, eu te amo, mas se você não for tomar banho agora e lavar debaixo dos braços com alguma substância cáustica eu vou fazer a sua cama no quintal”. Daquela época até hoje, o Rexona provavelmente é o único amigo que nunca me decepcionou.

Eu gostaria de imaginar que todas as pessoas na vida tiveram essa educação. Mas não é a verdade. Como alguns pais não se importam se a perna do seu filho têm mais ângulos que um octágono ou se ele mal consegue se expressar devido a um distúrbio de fala, outros não avisam aos filhos que higiene é uma necessidade como água, ar e pornografia. Mesmo quando eu preferia deixar o chuveiro ligado enquanto ficava no chão lendo Turma da Mônica (de nada, planeta), eu tinha ciência o bastante para manter um método que consistia em ao menos um banho por dia.

Estabelecer o uso do desodorante como doutrina foi para mim e meus pais o equivalente à conversa sobre sexo. Eu nunca tive de fato a conversa sobre sexo, provavelmente porque a) eles desconfiavam que com esses genes essa não seria uma prática comum na minha vida; b) eles sabiam que se falassem comigo a palavra “sexo” as veias do meu pescoço iam explodir ao mesmo tempo em que eu entraria em combustão instantânea; e c) porque minha mãe já desconfiava que eu tirava muito mais informações do que eu precisava de outras fontes.

3. “Você vê filmes demais, Darllam”.

Algo que me surpreende e me deixa feliz é que essa frase nunca me foi dita com preocupação.

Meu pai diz que nunca viu um filme completo em sua vida. Minha mãe não gosta de ir ao cinema desde que teve a alegria de ver, na adolescência, a doce Regan vomitando no padre Merrin em O Exorcista. Mas eles não olharam feio pra minha coleção cada vez mais crescente de filmes ou para o meu estrito regime de alugar um DVD por dia durante a semana e três aos finais de semana. Pelo contrário, eles abraçaram essa mania de uma maneira inexplicável. E isso é importante porque eu credito aos filmes muito do meu caráter. Uns 117%.

Uma boa lembrança não relacionada a comida que tenho da adolescência é dos meus pais batendo à porta da sala aos sábados de madrugada quando eu já estava no terceiro filme da noite. Mesmo que eles sempre chegassem justamente na única cena de sexo do filme me fazendo apertar o botão de próxima cena num gesto incrivelmente rápido. Vou sempre me lembrar de quando eles abriam a porta, riam e balançavam a cabeça em uma doce e fingida reprovação à minha loucura. Esse é o momento em que vocês percebem que eu tenho coração e uma música do Snow Patrol começa a tocar.

-

Acredito que se não fosse pelo bom senso dos meus pais hoje eu seria um ser humano completamente diferente. Provavelmente, eu seria líder de um grupo de oração e usaria camisas sociais marrons que estariam sempre manchadas por dois círculos perfeitos de suor. Minhas calças e meus sapatos também seriam marrons. Tudo seria marrom.

Obrigado, mãe, obrigado, pai, e desculpa por todas as vezes que roubei dinheiro das suas carteiras. Um dia eu os recompensarei, visitando-os quando vocês estiverem velhos e ficando no máximo por três dias ou até ter que ser levado ao hospital para levar pontos porque eu fui acertado por uma xícara de sopa quente durante uma discussão. Porque, se não fosse por vocês, a única coisa que me livraria do destino terrível que me estava reservado seria a minha morte na quarta série, consequência de bullying.

E tudo que eu teria seria uma creche com o meu nome.

Post

Como Sobreviver a um Atropelamento

In Oje Vita Mia on May 1, 2011 by darllamcruz

Eu fui atropelado ontem. Não, eu NÃO estava bêbado. Não estava. Juro. Cala a boca.

Eu já refleti muito sobre atropelamentos na minha vida, porque o perigo está aí e eu não sou uma das pessoas mais espertas do mundo. Geralmente o carro te atinge as pernas, você tem fraturas expostas, desloca a bacia, é atirado contra o para-brisa e talvez morre. Mas eu gostava de imaginar que se um dia fosse eu a pessoa a ser atropelada, eu seria mais esperto. Eu teria reflexos de Jason Bourne e daria um “pulo e rolada” a la Syphon Filter rumo à segurança. E, o mais importante, sairia vivo. Agora, atentem aos fatos, crianças, e vejam porque não ter vida social na adolescência e passar todo seu tempo vendo filmes de ação pode salvar a sua vida.

Eu estava na frente do meu prédio com um amigo esperando nossa carona pra uma festa. Nosso amigo acenou do outro lado da rua, e como o carro dele já estava lá a algum tempo e eu percebi que estávamos fazendo-o esperar, eu saí correndo pela rua, com o discernimento de uma criança de cinco anos. Os carros estavam parados, pois o sinal estava fechado, mas eu não vi que uma parte da rua estava liberada. Eu me lembro de olhar para o lado e ver um capô preto vindo em minha direção.

Já falaram muito sobre o que você vislumbra no momento da morte. A única coisa que eu pensei nos milésimos de segundos antes do carro me atingir foi: “Caralho, eu vou morrer, vou estragar o dia de todo mundo e não vou beber”. Não sei o que me fez fazer isso, se foi o instinto de sobrevivência ou a vontade de álcool, mas meu sentido aranha aflorou. Eu bati com as duas mãos no capô do carro, tomei impulso, dei um tsukahara carpado em direção à calçada e cravei a aterrissagem.

Sério, eu caí em pé. Os juízes levantaram as plaquinhas com as notas 9, 10 e 9,5.

Eu fiquei lá, tremendo, meio catatônico, imaginando se aquilo ali era a morte e se eu ia começar a conversar com as pessoas e ninguém ia me ouvir, tal qual Patrick Swayze em Ghost.

Eu também não acreditaria se me contassem essa história, mas eu tenho cerca de quatro pessoas que podem atestar o fato e eu desafio vocês a provarem que estou mentindo no tribunal.

As pessoas não sabem lidar com alguém que sai bem de um atropelamento, ou pior, em pé. Eu também senti que eu estava meio errado naquela situação. Pensei em me deitar e começar a fingir alguma coisa pra causar menos estranhamento aos transeuntes. O motorista me obedeceu prontamente quando eu disse que estava bem e que ele podia fugir da cena do crime. A mãe do meu amigo é médica e constatou que eu não ia morrer. Então fizemos o que quaisquer pessoas normais fariam nessa situação. Ignoramos a experiência quase letal e fomos pra festa. A gente pensou em passar no hospital, mas é muito difícil encontrar cerveja em hospitais. Eu também tenho bastante experiência na área da medicina (anos de séries médicas) e constatei que não tinha sido nada muito grave.

Na festa, já ébrio, contei essa história umas quatro vezes para cada pessoa, conhecidos ou não. Talvez até usei como cantada, mas não funcionou. No fim, todos já estavam me evitando. Foi-se o tempo em que falar “Fui atropelado” abria portas e fazia todo o mundo se compadecer e gostar de você. As pessoas não têm mais coração.

Eu só fiquei com uma dor no joelho do momento que eu atingi o chão. Uma vitória para um acidente que causa quatro mortes a cada dez ocorrências (eu acabei de inventar essa estatística). Na hora eu não senti muita coisa, acho que por causa do rush de adrenalina. Hoje eu estou mancando um pouco e pensando se é o caso de comprar uma bengala.

Se estou orgulhoso por ter sido um imbecil? Não, nem um pouco. Se estou orgulhoso por ter sido ninja? Sim, muito.

Refletir sobre a mortalidade não está me fazendo muito bem. Mas quando eu conseguir parar de pensar nisso, eu vou apenas usar essa história como desculpa para comer mais, não entregar trabalhos acadêmicos e não me sentir culpado por usar os cartões dos meus pais para fazer compras internacionais. A vida é curta.

Eu acho aqueles livros “Não Sei Quantas Coisas Para Fazer Antes de Morrer” um pouco estúpidos porque sinto que deve ser um pouco difícil fazer as coisas depois que você morre. E eu teria morrido sem ver o último Harry Potter.

Te faz pensar.

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.