Minha relação com minha família, como tudo na minha vida, é engraçada. Existe amor mas também existe uma caixa de emergência com rum e Coca que só é aberta quando eu preciso de ajuda para sobreviver às visitas parentais. Se você tem a minha sorte, chega uma hora em sua vida em que todos os seus relacionamentos deixam de ser normais e começam a parecer coisas do prime time americano. Dito isso, se tivesse de voltar a morar com os meus pais eu iria enlouquecer e definhar lentamente. Eu pararia de fazer a barba e nunca sairia de casa. Eu dividiria a cama com os esqueletos dos meus pais e quando eu fosse velho e já uma lenda urbana, crianças jogariam pedras na minha janela e sairiam correndo.
Frequentemente eu sinto saudades da gostosa conveniência daquela época quando as coisas pareciam se materializar como mágica: comida, roupas, massagens nos pés. Mas é parte da vida, acho, ter que lidar com isso. Ou não, como eu faço, e ter anemia por não comer aos domingos devido à preguiça de sair do apartamento, confeccionar cuecas usando panos de prato e alfinetes porque você não quer lavar as suas e ter que negociar com mendigos por um pouco de alívio muscular.
- Tem algum trocado pra me dar?
- Sim, mas em troca você vai ter que esfregar meus pés. Gentilmente.
Mas eu não sou um ingrato. Pelo contrário, sou infinitamente agradecido por tudo que meus pais fizeram por mim, e não é pouca coisa. Mas algumas eu considero em bem maior escala que outras. Como exemplo:
1. Reparo e restauração
Eu fui um bebê bonito. Mas o tempo é traiçoeiro e quando eu tinha uns seis anos já dava pra perceber que eu não teria ao meu favor a qualidade da beleza. Mas se hoje eu sou assim, imaginem vocês que eu poderia ser pior. Eu sei que é difícil conceber um cenário tão horrível, mas alguém precisa mostrar para os jovens que o mundo não é bonito.
Minhas pernas eram muito, muito tortas. Minhas rótulas estavam apaixonadas e se recusavam a não se encararem o tempo inteiro. Nos delírios do meu pai, eu seria um ótimo jogador de futebol porque minhas pernas eram iguais às do Garrincha. Bem, me provei uma decepção para ele e para mim, e fui levado a um ortopedista para que minhas pernas alcançassem um mínimo de paralelidade.
A cura para o que é chamado medicamente de joelho valgo eram botas corretivas. E eu as usei por mais ou menos um ano. Eu quero que isso fique claro, porque esse é só o início das minha lista de traumas que se forem postas no papel se estenderão como uma daquelas cartas de três quilômetros que as meninas mandavam para os Hanson. Elas eram pretas, tinham bico ligeiramente fino e um pequeno salto. Como eu não fui espancado até a morte pelos meus coleguinhas do pré? Eu não sei. Elas eram inclusive motivo de inveja da minha mais antiga amiga: “Por que você pode ter botas da Spice Girls e eu não posso?”. O importante é que minhas pernas são relativamente normais agora e meus dedões não vivem mais um belo caso de amor.
Como estamos falando de mim, esse era apenas um no meu infindo rol de defeitos. Chamavam o que eu tinha de língua presa, mas na minha opinião ela era solta demais. Eu falava de um jeito que só os homossexuais da indústria da moda conseguem sustentar com admirável respeito. Os meus ss se estendiam bem mais do que o desejado e se enfiavam também depois dos tt, o que era um ótimo recurso cômico para qualquer pessoa que não era eu. Fui levado a um fonoaudiólogo, e vários exercícios de fala depois, consegui parar de sibilar. Durante esse processo, descobri que o senhor fonoaudiólogo era meu único amigo e o condecorei Comandante da Real Ordem Vitoriana.
Quando meus pais perceberam que meu processo de expansão estava fora de controle, devido ao fato de eu ter conseguido uma massa gravitacional própria e já estar atraindo pequenos objetos, eles ficaram preocupados com a minha saúde e também tomaram medidas cautelares. Não funcionou, mas a culpa não foi bem deles. Me levaram a uma nutricionista que era feita de pura maldade. Se as minhas palavras têm algum poder, ela e sete gerações suas estão fudidas, digo, amaldiçoadas. Peço desculpas a ela, aos seus filhos e netos. Os que vêm depois eu provavelmente não conhecerei, então isso é um problema deles.
Eu até tentei viver essa vida triste que ela quis me impôr, mas vida de iogurte light, de suco sem açúcar e de biscoitos água e sal sem qualquer tipo de acompanhamento não é bem uma vida. Eu me lembro de depois de algum tempo sofrer ataques de fúria glutônica em que eu comia tudo que existia na geladeira e nos armários e em casa e no universo. Durante um desses ataques minha avó perdeu parte da panturrilha.
Eu eventualmente consegui abaixar meu índice de massa corporal de forma que ele agora não conta mais com três dígitos. Parte pela sutil vigilância dos meus pais, que não queriam que eu não comesse o que eu gostasse, mas apenas impedir que meu sangue solidificasse devido ao alto índice de gordura.
Mas eu ainda como bastante, e se eu virar a primeira múmia do mundo a ser conservada por esse processo, deixo a permissão para que meu corpo perfeitamente preservado seja exibido pelo mundo até o fim dos tempos, em 2227, desde que me montem nos museus sentado num sofá diante de uma TV que passa uma maratona interminável de Simpsons.
2. Seu nariz existe por um motivo
Desde uma idade muito nova meus pais me ensinaram sobre a importância de estar ciente dos seus odores corporais. Eles existem, nunca são bons e é nosso dever combatê-los. Parece bobagem, mas qualquer ser humano que já teve o mínimo de convívio social sabe que algumas pessoas convivem com o cheiro delas como se fosse uma coisa normal. Os pais dessas pessoas com certeza não fizeram elaborados rituais de purificação com frutas cítricas e bicarbonato de sódio com seus filhos. Essas simples e mínimas noções de higiene.
Algumas pessoas inclusive se vangloriam por ter um cheiro natural. Não é natural e você muito dificilmente vai atrair qualquer ser humano com olfato. Você não está liberando feromônios, e sim um cheiro semelhante ao de uma cebola embebida em cerveja que foi esquecida dentro de uma caixa no sol. As pessoas não somente não estão dispostas a terem contato algum com você como vão te acertar com uma pá e despejar seu corpo no aterro sanitário. Estes não tiveram, como eu, pais que te recebiam depois de uma tarde isenta de antitranspirante e repleta de brincadeiras na rua com um “Filho, eu te amo, mas se você não for tomar banho agora e lavar debaixo dos braços com alguma substância cáustica eu vou fazer a sua cama no quintal”. Daquela época até hoje, o Rexona provavelmente é o único amigo que nunca me decepcionou.
Eu gostaria de imaginar que todas as pessoas na vida tiveram essa educação. Mas não é a verdade. Como alguns pais não se importam se a perna do seu filho têm mais ângulos que um octágono ou se ele mal consegue se expressar devido a um distúrbio de fala, outros não avisam aos filhos que higiene é uma necessidade como água, ar e pornografia. Mesmo quando eu preferia deixar o chuveiro ligado enquanto ficava no chão lendo Turma da Mônica (de nada, planeta), eu tinha ciência o bastante para manter um método que consistia em ao menos um banho por dia.
Estabelecer o uso do desodorante como doutrina foi para mim e meus pais o equivalente à conversa sobre sexo. Eu nunca tive de fato a conversa sobre sexo, provavelmente porque a) eles desconfiavam que com esses genes essa não seria uma prática comum na minha vida; b) eles sabiam que se falassem comigo a palavra “sexo” as veias do meu pescoço iam explodir ao mesmo tempo em que eu entraria em combustão instantânea; e c) porque minha mãe já desconfiava que eu tirava muito mais informações do que eu precisava de outras fontes.
3. “Você vê filmes demais, Darllam”.
Algo que me surpreende e me deixa feliz é que essa frase nunca me foi dita com preocupação.
Meu pai diz que nunca viu um filme completo em sua vida. Minha mãe não gosta de ir ao cinema desde que teve a alegria de ver, na adolescência, a doce Regan vomitando no padre Merrin em O Exorcista. Mas eles não olharam feio pra minha coleção cada vez mais crescente de filmes ou para o meu estrito regime de alugar um DVD por dia durante a semana e três aos finais de semana. Pelo contrário, eles abraçaram essa mania de uma maneira inexplicável. E isso é importante porque eu credito aos filmes muito do meu caráter. Uns 117%.
Uma boa lembrança não relacionada a comida que tenho da adolescência é dos meus pais batendo à porta da sala aos sábados de madrugada quando eu já estava no terceiro filme da noite. Mesmo que eles sempre chegassem justamente na única cena de sexo do filme me fazendo apertar o botão de próxima cena num gesto incrivelmente rápido. Vou sempre me lembrar de quando eles abriam a porta, riam e balançavam a cabeça em uma doce e fingida reprovação à minha loucura. Esse é o momento em que vocês percebem que eu tenho coração e uma música do Snow Patrol começa a tocar.
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Acredito que se não fosse pelo bom senso dos meus pais hoje eu seria um ser humano completamente diferente. Provavelmente, eu seria líder de um grupo de oração e usaria camisas sociais marrons que estariam sempre manchadas por dois círculos perfeitos de suor. Minhas calças e meus sapatos também seriam marrons. Tudo seria marrom.
Obrigado, mãe, obrigado, pai, e desculpa por todas as vezes que roubei dinheiro das suas carteiras. Um dia eu os recompensarei, visitando-os quando vocês estiverem velhos e ficando no máximo por três dias ou até ter que ser levado ao hospital para levar pontos porque eu fui acertado por uma xícara de sopa quente durante uma discussão. Porque, se não fosse por vocês, a única coisa que me livraria do destino terrível que me estava reservado seria a minha morte na quarta série, consequência de bullying.
E tudo que eu teria seria uma creche com o meu nome.